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A mediocridade não é um carma — aliás, não acredito em carmas —, mas ela pode se tornar a marca de um povo e de sua cultura. Nesse sentido, podemos pensar que é um alívio que o Brasil possa se orgulhar dos grandes feitos de seus cidadãos, não é mesmo? Afinal, este é um país que se envaidece, com razão, por haver tido um dos maiores romancistas da literatura universal (que, como disse Alfredo Bosi, só não foi canonizado internacionalmente como tal porque escreveu em português e no Brasil) — aliás, não apenas Machado de Assis, mas nomes como Aluísio de Azevedo, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, dentre inúmeros outros, fazem da nossa uma literatura riquíssima e original. Este é também o país de César Lattes, o paranaense codescobridor do méson pi, que, apenas por uma injustiça (ah, as injustiças!, quantos brasileiros já foram vítimas delas!), não ganhou o Nobel de Física em 1950, ao lado de Cecil Powell. E é ainda a terra de Carlos Chagas, Warwick Estevam Kerr, Milton Santos, Mário Schenberg, Antônio Cândido, Carmen Portinho, Celso Furtado, Maurício Rocha e Silva, Marta Vannucci, Clóvis Beviláqua, dentre tantos outros nomes notáveis nos mais variados campos do saber.
Porém, de quantos desses nomes um típico brasileiro realmente já ouviu falar? Quantos de nós estamos familiarizados com sua obra e seus feitos? Ei, você, leitor! Já leu aquele romance? Já ficou sabendo daquela pesquisa, daquela descoberta, daquele artigo? Sim, eu sei que erudição e conhecimento não tornam necessariamente alguém numa pessoa melhor. Não há evidências que corroborem a tese de que ler e estudar mais nos tornem mais humanitários, mais empáticos para com os outros à nossa volta. Na verdade, há muita gente culta e genial, que é, apesar disso, totalmente indiferente para com o sofrimento alheio. Isso é inegável.
A questão, portanto, não é essa. A erudição e o conhecimento não se fazem preciosos e desejáveis apenas na medida de sua eficácia em nos tornar mais humanos, mais tolerantes, menos egoístas e mais engajados na mudança do que é injusto em nossa própria sociedade. Erudição e conhecimento são preciosos e desejáveis porque, se com eles já não há garantia de autoaprimoramento, de autoavaliação, de iluminação pessoal, e, sobretudo, de autocrítica, sem eles as trevas e a miséria humana se impõem como se fossem um fado. A ignorância deixa de ser um lamentável acidente e se converte num traço característico daninho de todo um povo e da cultura que este erige ao seu redor.
Hoje, quando nos voltamos para os países que ocupam as melhores posições no ranking da qualidade de vida, onde a corrupção também existe, mas é tratada com menos de condescendência do que por aqui, onde a distância entre os mais ricos e os mais pobres não é imensa e vergonhosa como no Brasil, onde os impostos pagos (que não são tão numerosos nem em cascata, como no Brasil) geram uma contraprestação estatal de serviços públicos de qualidade, onde malandragem não é algo que se encontre na lista das grandes virtudes, podemos constatar ao menos duas coisas: 1) o nível de cultura e conhecimento gerais é notadamente elevado e 2) a educação pública é muito, muito boa.
É o velho lema: “A revolução começa na escola.” Já o ouvi antes. O problema é que, enquanto outros países têm se esforçado para colocá-lo em prática, aqui, no Brasil, ele só integra os discursos demagógicos dos políticos ou o delírio utópico de acadêmicos e intelectuais que pouca ou nenhuma influência têm sobre a máquina burocrática de nosso Estado. Nossos discursos e nossa LDB são quase perfeitos. No papel, tudo é lindo e viável. Mas tudo morre no papel. Ou no palanque.
A esse respeito, outro dia, tive a tristeza de assistir a um ótimo documentário. O paradoxo da frase que acabei de escrever deve-se ao fato de que o elogiável Pro dia nascer feliz (2006), dirigido por João Jardim, apresenta-nos uma realidade já conhecida, mas que nos esforçamos todos os dias para ignorar. Uma realidade incômoda, que abala os pilares que sustentam nossos sonhos de mudança. Como assim? Ora, é difícil assistir àquelas cenas e continuar acreditando. Nada mais nem menos do que isso. E a verdade é que um ateu como eu pode não ter fé em deuses, ou no poder dos espíritos ou dos orixás, mas tenho fé em muitas outras coisas. Uma fé irracional, bem parecida com aquela definida por Paulo na Epístola aos hebreus: “A fé é a substância daquilo que se espera, a evidência das coisas que não se veem” (Hb 11, 1). Isso! Evidência do que não se vê. Eis minha fé na revolução educacional brasileira. Uma fé que se vai minguando, mais e mais, a cada dia. Mas ainda carrego comigo. Por quanto tempo mais, não sei.
Hoje, muitos escrevem sobre a semelhança entre a cultura brasileira e a americana, a qual estaríamos assimilando num ritmo cada vez mais acelerado. Sustentam que esse seria um sintoma de nossa decadência e crise de identidade. Bem, não sei o quanto há de exagero e nacionalismo barato nessas análises, mas, se posso dizer que há um quesito em que estamos mesmo muito parecidos, é no que diz respeito ao fracasso da escola pública. Sobre esse assunto, o documentário Waiting for Superman (“Esperando pelo Super-Homem”, 2010), do diretor Davis Guggenheim, apresenta-se como um bom material para uma leitura comparativa dessas duas distintas realidades — embora seja importante dizer que, se o filme de Jardim se esforça para ser imparcial, o de Guggenheim é um pouquinho mais tendencioso, com um tom crítico mais panfletário.
Assim, enquanto o filme de Jardim mostra a precaríssima situação das escolas públicas, em especial em cidades do interior do Brasil, Waiting for Superman não mostra escolas tão decrépitas nos Estados Unidos, mas as que aparecem na tela tampouco têm a estrutura minimamente decente que encontramos em praticamente toda escola particular, lá e aqui. Além disso, tanto aqui quanto na terra de Obama, há professores mal pagos, mal formados, com péssima didática, sem estímulo ou interesse de fazerem seus alunos aprenderem. De fato, em nenhum dos dois países, o transtorno com a qualidade do ensino público se resume a esses dois fatores simplistas (problemas estruturais + perfil do docente).
O estudante da escola pública
Existe outro problema — em especial, nos dois países citados —, que se encontra para além dos muros da escola: o aluno. Ou melhor, como este é afetado pela criação que recebeu em casa, como é influenciado pelos pares com que convive, como é estimulado ou desestimulado pelo ambiente à sua volta. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, os perfis dos alunos da escola pública são os mais variados possíveis. Numa mesma sala, pode haver o filho de um professor, o de um quitandeiro, o de um pequeno produtor rural analfabeto, o filho de pais desempregados e em crise, o de pais divorciados, o filho de uma mãe solteira, o que é criado pelos avós e até mesmo o filho de um médico ou de um advogado, que, algumas vezes, resolvem economizar no ensino fundamental, deixando para mandar o garoto a uma escola particular apenas quando chegar ao ensino médio ou à high school — no Brasil, isso já foi bem comum sobretudo em cidades pequenas, embora venha se tornando cada vez mais raro. Em casa e na vizinhança onde são criados, esses jovens tão diferentes são expostos a estímulos distintos e têm acesso a materiais e tecnologias distintos, o que obviamente se reflete em seu aprendizado. Não raro, o desempenho de uma classe assim revela-se tão heterogêneo, com desníveis tão acentuados, que fica difícil imaginar o que fazer para contornar a situação. (Quer dizer, imaginar soluções nem é tão difícil; duro é pô-las em prática.)
Não bastasse isso, estudantes brasileiros e americanos ainda têm mais um ponto negativo em comum: uma cultura que cada vez mais prestigia a futilidade e a vaidade, e menospreza o intelectualismo. Tanto lá quanto aqui, em especial nas últimas duas décadas, a figura do intelectual, do estudioso responsável e aplicado, é estereotipada e rotulada com a marca da impopularidade. E ai de quem for impopular, hoje em dia! O nerd ou o CDF são, em ambas as culturas, o avesso do que quer ser um típico adolescente — exalando libido pelos poros, em plena puberdade.
Some-se a isso o detalhe de que, como vários estudos já demonstraram, um adolescente normal tem um córtex órbito-frontal imaturo e está terminando de desenvolver o córtex pré-frontal dorsolateral, de modo que, nessa fase, ele ainda “engantinha” no uso do raciocínio permitido por essa região do cérebro. Sendo imaturos no que diz respeito a considerar as consequências de seus atos a longo prazo e pouco competentes na hora de lidar com suas emoções, os adolescentes estão mais vulneráveis às seduções do mundo para além dos muros da escola. Assim, flertes e namoricos não tardam a virar distrações, de modo que, não raro, como mostra o filme Pro dia nascer feliz, muitos garotos e garotas chegam a encarar uma desconfortável viagem de suas casas até a escola, à noite, em ônibus velhos, apertados e pouco seguros, sobretudo em pequenos municípios do interior dos estados, não porque de fato estejam interessados em aprender. Muitos nem sequer põem os pés em sala de aula. O que ocorre é que, enquanto as aulas estão sendo ministradas, não é difícil flagrar os que ficam fora da escola, apenas paquerando ou conversando com outros alunos ou com outros rapazes e moças da região.
De fato, em depoimentos de estudantes de escolas públicas, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, nota-se facilmente como boa parte do desinteresse em aprender está associado a esse apelo do que que está ao redor e à satisfação de nossos instintos mais básicos, inseridos nesse tipo de cultura que ridiculariza o nerd e engrandece o cara “descolado”, independente, atlético, bem como as moças curvilíneas e de notável beleza glútea — acima de tudo, quando ser nerd torna-se algo prontamente interpretado como ser virgem, num tempo, lugar e numa fase da vida em que sexo parece ser a única coisa que importa ou que deveria importar. Não surpreende, portanto, que haja alunos de periferias ou favelas que cheguem ao ponto de admitir, quando são entrevistados para estudos ou documentários, que, mesmo podendo estudar, sentem que têm muito mais a ganhar se trabalhassem para o tráfico — o que, infelizmente, em termos de ganho financeiro, sobretudo a curto prazo, não deixa de ser verdade.
Servindo ao crime organizado, muitos jovens conseguem comprar roupas e calçados caros, alguns compram um carro ou uma moto “estilosa”, têm dinheiro no bolso para sair com as garotas — enfim, o rapaz se torna um macho bem interessante aos olhos das fêmeas à procura desse tipo. Na verdade, é fácil compreender o porquê dessa escolha aparentemente absurda e suicida. (Eu disse entender, não justificar, que fique bem claro.) O cálculo é tão simples que, mesmo não sendo os agentes pressupostos pela teoria clássica da escolha racional, eles podem chegar rápido à conclusão de que a conquista desse status pode vir depois de um investimento de tempo e de massa cinzenta muito menor do que aquele que a educação requer.
Por sorte, isso não é uma regra. Há também muitos alunos de periferias, favelas e outras regiões pobres que veem na escola uma porta de saída daquela realidade violenta a que vêm sobrevivendo, onde tantos perdem a vida tão precocemente. Mas o problema, mesmo nesse caso, é que a educação não deveria ser isso: uma porta ou via de acesso para outro mundo qualquer, que não fosse aquele que nos apavora, que inspira nossos piores pesadelos. A educação deveria ser um via de acesso à realização pessoal, não uma rota de fuga. Tristemente, tanto no filme de Davis Guggenheim quanto no de João Jardim, vemos entrevistas com garotos que falam de sua vontade de estudar justamente por isso — não porque têm um sonho, mas porque têm pesadelos.
Os estudos no “País do Futebol”
Todos sabem que os esportes fazem bem, física e mentalmente. Não faltam estudos que corroboram essa tese. Assim, seria magnífico se nosso país soubesse como conciliar os estudos e a prática esportiva de modo que esta favorecesse o aprendizado dos que buscassem seguir pelo caminho de construção do conhecimento, enquanto aqueles fomentassem o raciocínio crítico nos jovens que, por outro lado, encontrassem sua excelência nos esportes. Seria fantástico se fossem criadas condições para que o estereótipo (não raro condizente com a realidade) do atleta burro e semianalfabeto desaparecesse, juntamente com o do profissional diplomado que, como médico, é um ótimo jogador de basquete — uma situação verificável em especial nos Estados Unidos, graças ao polêmico aproveitamento do desempenho esportivo para a obtenção de bolsas de estudo, o que já foi criticamente discutido, por exemplo, por Richard Hofstadter, em seu premiado livro O anti-intelectualismo nos Estados Unidos (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967), dentre outros. Sim, essa conciliação seria um feito extraordinário.
Isso porque o que tem havido, principalmente entre nós, é justamente uma situação alternativa de ou isso ou aquilo, “ou me dedico aos estudos ou aos esportes”, o que, não raro, redunda na conclusão “ou vou para a escola ou vou para o campo de futebol”. E eis quando nos deparamos com esse número absurdo de jogadores que largaram os estudos tão precocemente. Quando percebemos que, segundo a receita que criamos, ser o “País do Futebol”, infelizmente, continuará fazendo a alegria da Globo, da Band, dos clubes e de alguns jogadores-estrelas, mas não nos tornará um país de grandes mentes, o tal país do futuro de que tanto já se falou.
A esta altura, o leitor poderá estar erguendo o dedo em riste e dizendo:
“Ei, calma lá! Há sim exemplos de iniciativas que conciliam esportes e estudos.”
Sim, há. O problema é que essas iniciativas não têm sido bastantes para mudar a relação que amplamente se faz sentir em toda parte, conhecida sobretudo pelos que já ensinaram ou ensinam em colégios públicos: a lamentável inclusão do futebol no rol dos atrativos que têm afastado os jovens das salas de aula. Mais uma situação que os fazem sentir que estão perdendo tempo na escola, quando poderiam estar jogando bola e tentando chegar a um time grande, já que ninguém tem de estudar para ser o próximo Ronaldinho.
“Ah, mas também não é assim! Há grandes jogadores que estudaram, que podem servir de exemplo para essa garotada. Gente como Sócrates ou Tostão, por exemplo, que acabaram fazendo Medicina.”
Sim, eu sei disso. Aliás, todos adoram citar esses dois, justamente pela valoração social do curso em que vieram a se formar. Mas a questão é que não é neles que a garotada de hoje tem se espelhado. Não sejamos ingênuos nem hipócritas. Sem falar que esses jogadores citados são de uma época em que o sucesso nos gramados até trazia um bom dinheiro, mas não era como ganhar vários prêmios na loteria de uma só vez, o que é a realidade de uns poucos Ronaldinhos e Neymares de hoje. De fato, com a aposentadoria tão precoce a que todo futebolista sempre foi forçado, pensar em alguma outra coisa para se fazer mais tarde na vida era uma preocupação bem comum naqueles tempos, justamente por não ser tão gordo o cheque de cada mês.
Então, se um dia Tostão decidiu usar o dinheiro ganho nos gramados para investir numa formação universitária, a referência é inútil, já que não é isso o que as celebridades futebolísticas têm feito agora — e são estas que dão o exemplo aos jovens de nossos dias. Sem mencionar que, no que se refere a Sócrates, desde que ele jogava no Botafogo de Ribeirão Preto, já era do tipo que dava prioridade à carreira acadêmica, sendo aprovado para o curso de Medicina da USP naquela cidade do nordeste paulista aos 17 anos de idade, bem antes de estourar no Corinthians e virar um dos grandes ídolos do clube — aliás, ele jamais trancou o curso, se esforçando em dobro para conciliar com sucesso a atuação no Botafogo e as aulas, até se formar, em 1977, mesmo ano em que seu time conquistou a Taça Cidade de São Paulo — contra o São Paulo, no Morumbi —, e ele foi o artilheiro do campeonato. Ou seja, a postura de Sócrates já não tinha nada a ver com a maioria dos jogadores de seu tempo, que dirá com os de hoje.
Mas, não, eu não estou aqui para fazer coro com os que vivem reclamando dos altíssimos salários dos jogadores semialfabetizados. Tampouco estou querendo dizer que Neymar deveria tentar fazer faculdade ou que o Ronaldo deveria aproveitar a precoce aposentadoria para voltar aos bancos da escola. Não estou falando de dever fazer nada (até porque a ideia de estudos como uma obrigação me deprime); estou falando de ausência de vontade e desinteresse geral. E estou constatando que antes as coisas eram de um jeito, agora são de outro. O problema é que, para a mente ainda tão imatura dos adolescentes, a cultura dos futebolistas semianalfabetos mas milionários ao nosso redor não tem sido exatamente um estímulo para que desenvolvam o gosto pelos estudos, se é que me entendem. Quanto a isso há pouco o que discutir, pois não estou me referindo a exemplos e iniciativas isoladas; estou falando da impressão geral que os alunos têm e compartilham no tocante ao futebol: um ótimo jeito de se ficar milionário sem precisar estudar. De fato, sou capaz de apostar que não fui o único professor de escola pública a ouvir, de mais de um aluno, que só estavam frequentando o colégio “obrigados”, já que, se dependesse deles, passariam o dia no campo, aprimorando-se para tentar uma vaga num time profissional, ou estariam jogando no juvenil de sei-lá-que-clube.
Para piorar a situação de uma sociedade já tão problemática, esses que abandonam tão facilmente a escola para apostar todas as fichas nos gramados, normalmente se privam do contato com o debate de ideias que precisavam ser assimiladas com urgência e profundidade pelas crianças e jovens deste país, a fim de que mudanças necessárias pudessem acontecer o quanto antes. Ideias, essas, que infelizmente não são tão divulgadas quanto deveriam ser, que não costumam ser apresentadas em noticiários esportivos, que não costumam ser seriamente discutidas por esses mesmos jovens desistentes da escola, quando frequentam as redes sociais. Ideias como, por exemplo, a condenação de toda forma de violência ou discriminação contra a mulher, ou as que denunciam o absurdo da homofobia, do bullying, do racismo, do preconceito étnico etc. Nas salas de aula — a depender do papel do professor, é claro —, esses jovens poderiam aprender mais sobre as condições humilhantes, repressivas, agressivas e ameaçadoras a que tantos brasileiros são expostos, dia a dia, graças a persistência de valores decadentes em nossa cultura; persistentes em grande parte devido à nossa incultura.
A propósito, estou insistindo no papel negativo que o futebol acaba exercendo em nosso meio (e que não precisava ser assim) não só porque ele é nosso esporte mais popular, mas também porque não é por coincidência que, de norte a sul do país, verificamos rotineiramente uma conduta tão idiota quanto ofensiva entre torcedores de times rivais. Refiro-me à manjada associação daquele que torce pelo outro time como sendo “bicha”. Ora, quantas vezes por dia não nos deparamos, nas redes sociais que utilizamos, com montagens sobre fotos ou desenhos, em que os torcedores ou jogadores do outro time são retratados como gays caricatos ou estão sendo “enrabados” pelo representante do seu time? Como atleticano que sou, basta o Cruzeiro nos derrotar, para que eu comece a receber de certos “grandes amigos” alguma montagem estúpida com uma raposa pegando por trás um galo, com a violência típica de um estupro. (Aliás, um sintoma da ignorância: esses torcedores parecem não se dar conta de que, se você “come” outro de seu mesmo sexo, você também é “bicha”, não é mesmo?) Quando o oposto ocorre, isto é, quando somos nós que vencemos, é a vez dos atleticanos que conheço (e tenham a bondade de não me incluírem entre os que agem assim) fazerem a mesma palhaçada ofensiva. Ofensiva principalmente para com os homossexuais em geral. Eles, que se magoam diante desse comportamento não por serem homossexuais (é óbvio), mas por se verem usados como referencial de algo “abjeto”, “afrontoso”, “degradante”, com que nenhum jogador ou torcedor aceita ser comparado.
Agora, entenda, caro leitor. Há quase um consenso de que é pela via da informação, da educação efetiva, e não pela simplista e violenta da imposição do Estado — aprovando leis coercitivas e tentando obrigar a mudança de conduta pela via penal —, que se poderia, talvez, acabar um dia com a intolerância. Mas, se é assim, alguém vai mesmo ser ingênuo o bastante para dizer que, enquanto as salas de aula vêm sendo trocadas pelos gramados e quadras, enquanto os jovens vão deixando um ambiente informativo para se imiscuir num meio onde machismo, misoginia e homofobia vêm sendo encarados como condutas integrantes da “normalidade”, esses ex-alunos vão realmente contribuir para que tais mudanças ocorram? Bem, perdoem-me, mas duvido disso. A coisa fica ainda pior quando sabemos que, mesmo para os que se mantêm na escola, esses debates tão relevantes a que aludi acima são ignorados, graças ao perfil do professor que os alunos encontram na sala de aula.
Os professores na equação do atraso
No mencionado documentário de Waiting for Superman, há várias informações discutíveis, sobretudo no que diz respeito aos números apresentados por Guggenheim. Por isso mesmo, prefiro não os tomar por verdadeiros e citá-los aqui. Mas, no geral, algumas acusações feitas sobre a parte da conta que cabe aos docentes pagar pela péssima situação do ensino público por lá faz sentido, ainda que o diretor a tenha inflacionado demais em seu filme. Faz sentido nos Estados Unidos, tal como o faz por aqui. Afinal, trata-se dos vergonhosos salários e de como estes influem no empenho do professor (aliás, como nós, brasileiros, podemos ter os políticos mais caros do mundo e um dos mais baixos salários pagos a professores de que se tem notícia?), bem como se trata ainda do evidente desinteresse e descompromisso de alguns professores (que faltam demais, ou aparecem, mas não ministram suas aulas, ou as ministram porcamente), e da famigerada má formação do docente (o que, em não poucos casos, basta uma conversa de dois minutos para se constatar). É óbvio que este último ponto, o da formação, está relacionado com o fato de que, mesmo quando há incentivo governamental para que o professor tire um tempo de licença para se especializar, há outros custos pessoais com que um profissional tão mal pago, em termos relativos, sente-se relutante em ter de arcar.
De qualquer forma, o problema, apesar de suas várias explicações possíveis, existe. Ele está aí. Contribuindo com a matemática do atraso. E somemos a ele o fato de que a burocracia no sistema público de ensino, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, torna muito difícil, se não impossível, promover uma drástica mudança de baixo para cima. Não raro, propostas interessantíssimas são recebidas com desdém ou rejeitadas porque, alega-se, não estariam exatamente de acordo com as políticas ou diretrizes da Delegacia Regional, ou da Secretaria de Educação do estado, ou do Ministério da Educação. Ou do Conselho Intergaláctico de Educação. E, se conseguir implementar boas ideias já não é fácil, tente conseguir um processo administrativo contra um mau professor, só para ver no que vai dar. Já adianto: quase sempre não dá em nada. A pizza também é servida na educação pública brasileira. A burocracia revela-se uma desgraça emperrando o sistema, criando obstáculos para as mudanças, impedindo que a rede pública se livre de maus profissionais — e, nesse caso, muitas universidades públicas também padecem do mesmo problema, como bem sabemos.
No fim, basta irmos a qualquer escola pública de comunidades mais pobres e é bem possível que encontremos, para não se generalizar injustamente, ao menos um professor em atividade que mal domina a disciplina que leciona, até porque não se especializa nem se atualiza, que possui uma visão estreita do conhecimento e, por isso mesmo, costuma, por exemplo, não só desrespeitar o princípio da laicidade do Estado dentro da sala de aula, como nem sequer compreende o que isso quer dizer. Aliás, o que mais vemos acontecer no Brasil é o escancarado desrespeito à laicidade. Inúmeros são os profissionais da educação que acham que têm todo o direito de trazer suas crenças e valores moral-religiosos particulares para dentro da sala de aula e esfregá-la na cara dos alunos. Fica a pergunta: como mudar isso?
A terra da mediocridade
É. A situação está complicada.
Numa reportagem que vi recentemente, a respeito do elogiadíssimo sistema educacional finlandês, um especialista britânico falava que o sistema da Finlândia funciona mesmo muito bem… na Finlândia. Ele dizia que propostas de importá-lo estariam provavelmente fadadas ao fracasso por um simples detalhe: era um sistema concebido com base em traços da cultura finlandesa — de uma tradição familiar de ensino, de uma proximidade amplamente fomentada para com os livros, com as línguas, uma cultura que valoriza socialmente o professor etc. Isso por acaso lembra o Brasil? Para mim, não. Cada país tem que encontrar seu próprio caminho. Copiar o dos outros significa ignorar o que ambas as culturas têm de distintas. (O que não quer dizer que não possamos adaptar uma e outra coisa, quando e naquilo em que for possível fazê-lo.)
Acontece que praticamente toda iniciativa já concebida por aqui, com o objetivo de tentar mudar as coisas no sistema educacional, teve um alcance bastante limitado. Limitado sobretudo aos muros da escola. A casa e a rua, onde tantos de nossos valores se expressam e difundem, como já salientou Roberto DaMatta, não são alcançados. E, se o valor da educação, da cumulação do conhecimento e da autocrítica para a formação do caráter (bem como de uma ética humanista, como entendo) não começam já dentro de casa, como poderá apenas uma mudança na escola ser suficiente? Se tentamos ensinar a importância dessas coisas em sala de aula, mas o mundo do lado de fora rege-se pelos valores da futilidade, da vaidade, da condescendência com a violência, com a corrupção, com a intolerância, com o preconceito camuflado de “piada politicamente incorreta”, com a criminalidade vista como admirável “malandragem”, acolhida com um sorriso maroto e um tapinha nas costas, então que eficácia terá qualquer reforma educacional? Se os problemas socioeconômicos, as gritantes discrepâncias salariais da população, o acesso a livros, à internet, dentre outras coisas, não forem igual e paralelamente revistos e enfrentados, como apenas a escola vai operar o milagre de transformar o perfil de uma nação e de um povo?
Em suma, parece claro que para mudar a educação pública no Brasil, precisamos de um renascimento sociocultural. Mas este depende de uma mudança de mentalidade geral, o que, por sua vez, depende de informação e, assim, de educação. É como se estivéssemos diante de uma noção tardia de catch-22, um paradoxo circular, autocontraditório, que remonta ao romance homônimo de Joseph Heller. A pergunta é: como romper o círculo e encontrar uma solução?
Sinceramente… Não faço a mínima ideia! Mas continuo acreditando. Por enquanto. Talvez, o que é uma grande ironia para um ateu, eu esteja simplesmente à espera de um milagre.
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Não tive como discordar de nada de nada de seu texto. Você retratou fielmente a realidade do jovem diante da educação atualmente, sem demagogias e por meio de experiências. Eu não sou professor, mas lido com jovens, apesar de já ter 21 anos, eu verifico bastante essa aversão ao conhecimento e baixa capacidade crítica a um assunto. Quantas vezes já fui chamado de nerd pelo simples fato de gostar de coisas impopulares, digamos que atualmente você não é nerd pelo fato de ser feio, ou baixo, ou inteligente, ou de baixa renda, se é nerd por seus gostos, o que você curte determina se você é nerd. No entanto, eu tenho notado que esses perfis de jovens está se deteriorando aos poucos. Eu observo bastante pelo Facebook um grande contraste nos perfis de vários jovens, mas também enormes interseções: aquele que curte basicamente só futebol, cantores pop e seriados comuns, e games de futebol;
aquela que curte cantores pop, um pouco de futebol, livros de autoajuda e coisas da Capricho;
aquele que curte futebol, mas curte cantores de mpb, rock ou metal, assiste seriados e filmes de ação e medievais e games relacionados;
aquela que curte animes, mas curte também coisas da Capricho, cantoras pop, e seriados de vampiro.
aquele que curte games, informática, design, mas não se parece nem um pouco nerd, frequenta academia, e lê livros impopulares;
aquela que curte metal, rock, que tem tumblr, twitter, curte filmes de terror, mas faz academia e tem bem delineado;
aquele que curte música independente, rock, poesia, drogas leves, mas bonito e lotado de meninas adicionadas;
aquela que curte futebol, anime, carros, rappers, livros, games, e fica com diversos rapazes.
A variedade é imensa! Creio que o preconceito não tem sido mais relevante como na década de 2000, e que o problema maior é apenas o estímulo à boa cultura desses jovens.
Parabéns pelo texto. Só queria complementar com uma triste constatação: Estudar em uma universidade federal aqui no Brasil é realmente “brochante”.
Pois assim como há uma alienação descontrolada da maioria dos estudantes do ensino fundamental e médio (tanto público com particular), existe também uma total apatia, desinteresse, excesso de “pseudo-intelectualismo” na maioria dos universitários brasileiros. As pessoas não percebem mais que o contato com o conhecimento (principalmente com a vastidão de conhecimento que existe hoje) é uma oportunidade única, não para apenas para ter uma profissão, mas principalmente para entender-se como animal e cidadão, ou seja, tentar encontrar suas “coordenadas” no cosmos.
Eu também tenho “fé”, mesmo não sendo religioso. Mas a cada dia que entro em uma sala de aula de um curso universitário e percebo que as pessoas não entendem e nem querem realmente entender sobre ciências exatas, naturais e humanas, ou seja, ser mais “universal”, a minha fé vai indo por “universidades” abaixo. Ficou confuso, mas acho que você entendeu. A humanidade tem tanto conhecimento disponível, com tantos poucos humanos interessados em realmente aprender.
Abraço