Autor: Camilo Gomes Jr.
Há um ditado que diz: “Gosto não se discute”. Não concordo. Prefiro dizer que gosto não se impõe, mas, de resto, tudo é discutível. Não existe isso de território restrito à discussão. Não acho, por exemplo, que criacionistas não possam discutir a factualidade da teoria da evolução. Discuti-la, eles podem; o difícil é refutá-la. É como aquele velho debate sobre se se deve ou não debater a existência de Deus. Alguns agnósticos acham que não. Outros agnósticos e praticamente todos os ateus acham que se deve, sim. Para estes, dentre os quais me incluo, não há isso de “indiscutibilidade” da noção de Deus.
Enfim… Gosto musical é mais uma dessas searas que, penso eu, se podem sim discutir, sendo censurável apenas qualquer tentativa de minha parte de tentar impor sobre os outros meu gosto em particular. Eu gosto de rock (desde rock’n’roll a heavy metal, ainda que não tudo dentro desse spectrum), gosto de blues e jazz, gosto de MPB (e também detesto muita coisa nesse mesmo gênero) e há muito aprendi a apreciar música clássica (sobretudo Vivaldi, Mozart, Bach, Dvořák e Chopin). Pop? Bem, também sou chegado a algumas coisas nesse gênero, sobretudo o pop dos anos 1980 e 1990. Ah, sim, folk songs (Dylan) também são legais! Por fim, vindo morar aqui, na Paraíba, também passei a achar interessante aquele forrozinho pé de serra, diferente de qualquer coisa parecida com o “forró” do Calcinha Preta, do Garota Safada etc. Quanto ao resto, sinto muito aos que curtem axé, sertanejo, pagode e funk, mas tenho verdadeira ojeriza disso tudo. Sem exceções.
Mas não, não foi para falar do que eu gosto ou não gosto, nem do porquê de gostar ou deixar de gostar disso ou daquilo, que resolvi escrever estas linhas que não discorrem sobre evolução, direito, bioética ou literatura. Ou melhor, talvez seja. Talvez seja para falar do que gosto e não gosto, e também de alguns desses outros temas, tudo ao mesmo tempo. Quer dizer, deixe-me tentar ser mais claro: há poucos dias ouvi uma coisa (e acho que “coisa” é um termo bem mais apropriado do que música) que me haviam dito ser considerada uma bela homenagem de um artista brasileiro a uma categoria trabalhadora muito injustiçada neste país: as empregadas domésticas. Tratava-se da canção “Doméstica”, do cantor baiano Tayrone Cigano. Ouvi-a com atenção, acompanhando a letra:
Quando eu chego em casa / Com um sorriso, ela me espera. / Com carinho, pergunta se já pode pôr a mesa / Que o jantar está quentinho. / Passa para mim todos recados que atendeu na minha ausência. / Na hora da novela, respeito o gosto dela / E assisto sem querer com paciência. / Antes de dormir, entro em meu quarto / E aquela cama tão cheirosa / Foi ela quem brigou para fazer minha noite mais gostosa. / Cuida bem de mim / E é por isso que eu não sinto solidão. / A gente nunca briga. / Ela é uma boa amiga. / E eu pra ela sou um bom patrão.
É neste ponto que o refrão dispara:
Doméstica / Tenho muito que te agradecer. / Doméstica / O Brasil inteiro ama você.
Primeiramente, perdoem-me os fãs do artista em questão, mas a música que embala a letra acima é horrível. Brega demais, na verdade! E sei que isso é só minha opinião, meu particular juízo de valor. Mas, enfim… Falando mais objetivamente, vejo alguns importunos problemas na letra citada, sendo o mais relevante deles o fato de que, ao contrário do que alguns parecem crer, a canção não me soa nem um pouco como uma louvável homenagem às empregadas domésticas. Para ser sincero, pareceu-me bem mais um hino à exploração sexual dessas trabalhadoras.
Talvez eu esteja sendo injusto com Tayrone. Mas, se for o caso, credito o equívoco à sua (sofrível) habilidade para compor. Afinal, algo que de pronto salta aos olhos na letra é o emprego confuso do pronome ela em “foi ela quem brigou para fazer”, onde não sabemos se este remete à ideia anterior — isto é, 1) “aquela cama tão cheirosa foi ela quem brigou para fazer” — ou se alude às palavras seguintes — 2)“foi ela quem brigou para fazer minha noite mais gostosa”. No primeiro caso, fica estranho pensar na ideia de que a empregada doméstica “brigou” para fazer a cama do patrão, quando isso, até onde sei, está entre os afazeres dessa profissional. Além disso, se a ideia era essa, as palavras “minha noite mais gostosa” ficam totalmente desconexas, sem o menor sentido no resto do verso. Por outro lado, se a frase 2) é a que realmente se adéqua ao contexto pretendido por Tayrone — desconsiderando-se o bizarro fato de que passamos então a enxergar uma vírgula depois de “cama tão cheirosa”, no verso anterior, e que “ela” passa a aludir anaforicamente a essa mesma cama, o que não faz o menor sentido —, tendo-se o pronome feminino fazendo referência à doméstica, o verso passa a traduzir uma clara relação de poder do patrão sobre a empregada exercido para além dos limites éticos, em que esta serve-lhe na cama, oferecendo-lhe sexo, a fim de “fazer [sua] noite mais gostosa”. E o pior: nas palavras do “narrador” dos eventos, ela o faz porque quer; é a doméstica quem se oferece a ele.
Confesso, essa música me enojou!
O pior foi que eu a escutei apenas porque algumas adolescentes, minhas alunas, vieram me contar que essa e outras pérolas do mencionado artista têm sido trabalhadas nas aulas de português do colégio (um dos mais caros de Campina Grande, a propósito), porque a professora é fã assumida de Tayrone Cigano e vê muita “riqueza literária” em suas letras. (Aviso: isso não foi uma piada.) As próprias alunas enxergaram que a letra da música citada não só é péssima, como não tem nada de elogioso em sua descrição das empregadas domésticas, nem enquanto classe trabalhadora, nem enquanto mulheres. Aliás, muito menos enquanto mulheres!
A curiosidade fez-me pesquisar um pouco sobre esse que é considerado o “deus do arrocha”, mas que eu desconhecia até então. Assim, descobri que ele tem uma legião de fãs Brasil afora, sobretudo no Nordeste, onde hoje vivo. E mais: para meu espanto, tomei conhecimento de que Tayrone Cigano carrega a fama de ter matado a sangue frio a ex-mulher e o amante desta. E é admirado por isso! Relatos há aos montes de gente que jura ter visto o cantor chegar para seu show num lugar assim e assado, num dia indeterminado — informações sempre imprecisas —, sendo trazido por uma viatura de polícia, que, após a apresentação, o teria levado de volta ao presídio, onde supostamente estaria cumprindo pena — situação que, por si só, já seria absurda. Mas acontece que a história, ao que tudo indica, não passa de uma lenda urbana. E como o sei? Simples: o próprio cantor teria admitido isso numa entrevista à revista Trip. “Pra que mexer nisso, né? Se está dando certo pra mim, deixa o boato correr. Mas é tudo mentira, não matei ninguém”, teria dito Tayrone. Além disso, realmente não encontrei nenhuma ação penal citando como réu o nome Tayrone Cardoso Machado. Tudo o que achei foi uma ação trabalhista em que ele e sua banda figuram como reclamados por um tal de Irenilson Santos Rodrigues.
Seja como for, é fato que muitos fãs do Cigano acreditam na história do cantor que não aceita traição e resolve tudo a bala. E acham isso o máximo. O jornalista e escritor Xico Sá, por exemplo, segundo reportagem da mesma revista Trip, teria se surpreendido ao ficar sabendo que os homicídios atribuídos ao cantor são muito provavelmente um mito. E teria explicado o porquê do fascínio que tal criatura inspira, inclusive sobre o próprio Xico: “Tayrone representa a vingança, para o macho traído; para as mulheres, virilidade. O boato das mortes e a carreira romântica são a síntese do bruto que também ama e hoje canta seu arrependimento.”
O macho traído que se vinga matando; ação brutal que o faz exalar perante as mulheres uma sedutora virilidade. Por mais que tal ideia ofenda a racionalidade de um humanista, uma coisa sou obrigado a admitir: faz sentido! Faz sentido do ponto de vista mais bestial do ser humano. Faz sentido quando contemplamos o animal humano reduzido aos mais elementares impulsos instintivos programados por seus genes. O Homo instinctivus em estado de natureza (na violenta versão de Hobbes, não na romantizada por Rousseau). Na verdade, não há nada mais primitivo (ou primata) em nós do que a empolgação de alguns homens com boatos sobre o assassinato “merecido” de uma mulher infiel ou a visão de mulheres suspirando pelo suposto assassino que não vê problemas em ser casado e ser amante de mulher casada (como canta em “Caso proibido”), e que atiça os desejos das fãs com versos como “Se você chamar, eu vou até aí. / Vou arrochar gostoso / E te amassar assim”, mas que, ainda assim, faz questão de deixar claro, noutra letra, que tal comportamento é inaceitável na mulher objeto de seu ciúme doentio “Tenho ciúme de tudo. / Tenho ciúme até da roupa que tu vestes.”
A glorificação masculina de um artista como Tayrone Cigano, por um lado, num tempo em que uma simples busca no Google retorna inúmeras notícias de mulheres assassinadas em crimes passionais no Brasil (isto só neste ano de 2011), e a paixão histérica de milhares de mulheres que o veem como o macho-alfa perfeito para a cópula, por outro lado, têm muito a nos dizer sobre a lamentável realidade com que ainda convivemos e, pelo visto, continuaremos a testemunhar por um bom tempo. Curiosamente, a razão humana muitas vezes sucumbe perante os instintos, de modo que os variados discursos que elaboramos não raro se prestam a mascarar esse forte apelo primário do animal amoral em cada um de nós, e as sutilezas que nossos argumentos constroem ajudam a resolver nossa dissonância cognitiva. Eis como um ato repulsivo e condenável, de repente, vai ganhando contornos de arroubo justificado pela paixão descontrolada, o compreensível desespero momentâneo de um indivíduo apaixonado.
É claro que estou ciente de que o crime passional encerra aspectos cientificamente estudados que demonstram uma real autonomia limitada do agente no momento do ato praticado por violenta emoção. No âmbito do direito penal, isso até figura como causa para diminuição da pena-base em comparação com o ato criminoso calculado e executado com frieza. Mas essa é a questão: esses estados de emoção arrebatadores não inocentam o agente nem justificam seu ato. A conduta ainda assim será punida.
Considerando o lado da vítima, em especial das mulheres vítimas de homens descontrolados, sabemos que inúmeras sofrem recorrentemente com a violência de namorados, maridos ou companheiros. Estamos cientes de que grande parte dessas se resigna à sua situação por medo do homem com que convivem. Mas a triste verdade é que também há aqueles casos em que a vítima não denuncia o parceiro agressor em virtude de um sentimento que, por inspirar tamanha negligência em relação ao próprio bem-estar só para que a vítima possa manter ao seu lado alguém de quem passou a depender sexual e afetivamente, revela-se uma paixão nada menos do que doentia. Estas mulheres — obviamente, há homens que já vivenciaram ou ainda vivenciam o mesmo, mas o número de mulheres nessa condição é bem mais acentuado — estão dispostas a perdoar tudo em nome de seu amor.
Se são mulheres assim que se solidarizam com o (pseudo)assassino Tayrone Cigano, por outro lado não se pode dizer que sejam um produto apenas de sociedades como a nossa, onde o machismo acentuado ainda se verifica por toda parte. Na verdade, mulheres propensas a desculparem arroubos violentos, ciumentos e injustificáveis de seus amados existem em todos os cantos do planeta. E, recentemente, um bom termômetro para se avaliar essa redução da dissonância cognitiva em face dos atos do amante violento tem sido o sucesso editorial e cinematográfico da chamada saga Crepúsculo, criada pela autora Stephenie Meyer.
Por um lado, entende-se que uma boa parte desse estrondoso sucesso mundial deve-se a um certo ingrediente de conforto psicológico: uma garota normal, que não prima pelo intelecto nem é dona de uma beleza estonteante, que não se destaca em nada mesmo, acaba de repente sendo disputada por um belo e poderoso vampiro e um sexy e robusto lobisomem, ambos charmosos, ambos desejáveis. O nome do que se faz subjacente ao encantamento dessa trama (que, do ponto de vista literário, é um lixo, preciso dizer) é a fantasia. É essa capacidade que nossas mentes têm de nos projetar em cenários que provocam em nós uma imensa sensação de prazer, essa capacidade de autoengano em que nossas mentes assumem como realidade o que é tão somente imaginado, a qual parece nos servir muito bem para contrabalançarmos nossas experiências frustrantes do dia a dia ou para nos encher de esperança quanto a um possível (ainda que improvável) porvir.
Nesse sentido, é curioso que a história já tenha até sido interpretada como valorativa da figura feminina, justamente por falar de duas cobiçadas figuras másculas que brigam por uma garota, que, no final das contas, mesmo não tendo “nada de mais”, tem a única coisa que eles querem e não têm como tirar dela à força: seu “Sim”. A interpretação é curiosa por ser no mínimo muito forçada. Se há uma coisa que os livros e filmes da saga Crepúsculo decerto não fazem é valorizar a figura feminina. Pelo contrário, toda a trama se resume a uma garota que, numa paixão doentia, vê-se disposta a largar seus estudos, seus projetos, sua família e até mesmo sua própria vida, apenas para ser possuída por Edward, seu príncipe vampiresco.
E uma patente relação entre mulheres dispostas a justificar os abusos de seus parceiros e a obra de Stephenie Meyer se pôde verificar, por exemplo, com o recente lançamento do quarto filme da série (reproduzindo o que já estava no livro Amanhecer), em que finalmente ocorre o casamento de Bella Swan e Edward Cullen. Acontece que, durante a lua de mel, o marido se descontrola ao fazer sexo com a esposa e a deixa coberta de hematomas. Qual a reação de Bella diante disso? A mesma de milhares e milhares de fãs deslumbradas da séria de Stephenie Meyer: a compreensão. “Ele não fez por mal; apenas não é capaz de se controlar, só isso!”, é o que dizem, tentando justificar. Por fim, esperam ter tudo resolvido com a seguinte afirmação: “Mas a verdade é que ele a ama!”
Sim. Edward, o vampiro, assim como Tayrone Cigano, representa no imaginário de muitas mulheres a batida figura do bruto que também ama. Quanto a isso não resta dúvida. Mas se trata de uma idealização autoenganosa erigida sobre um fundamento instintivo e primitivo que a psicologia evolutiva bem conhece. Infelizmente, tal idealização é também o que, em muitos casos, mantém impunes esses agressores que vão submetendo suas parceiras a abusos cada vez piores, até o dia em que cometem o desatino final. Aquele dia em que a mulher apaixonada pelo bruto vê sua vida esvair-se sob a brutalidade desse amor doentio.




