Autor: Camilo Gomes Jr.
Também publicado em: Bule Voador
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Começo este texto pedindo ao leitor que imagine uma cena um tanto insólita. Você entra em certo estabelecimento, senta-se a uma das mesas disponíveis e, enquanto está sendo atendido, indeciso diante do diversificado leque de opções, você pergunta: “Alguma sugestão?” É quando, atônito, ouve a seguinte resposta: “Que tal uma punheta?” Ainda boquiaberto frente ao que acabou de escutar, o que um homem grita a um menino pré-adolescente sentado com ele à mesa ao lado deixa você ainda mais chocado. “Pois meto-te cinco dedos no cu, seu puto”, diz o sujeito, com todas as sílabas e fonemas, sem nenhum pudor nem receio de que o escutem. Não, caro leitor, nessa cena imaginada você não foi transportado de repente para algum antro de perdição na antiga Sodoma bíblica, a terra dos alucinantes pecados orgíacos cujas histórias têm sido assombro (e tentação) para a imaginação da cristandade ao longo de séculos e séculos. Na verdade, toda essa perversão aparente na ordem das coisas ao seu redor se deu apenas porque você cruzou o Atlântico e encontra-se agora em Portugal, a encantadora terrinha de nossos ex-colonizadores, cujo idioma pátrio nos foi legado e ainda temos em comum. Quer dizer, ainda temos mais ou menos em comum.
Frases como as que lemos acima constituem apenas alguns divertidos exemplos de como um mesmo idioma pode apresentar não apenas variações de sotaques de uma região para outra, como também nele podem variar desde algumas construções gramaticais à semântica de inúmeros vocábulos popularmente usados, quer dizer, o sentido que uma palavra tem aqui, mas que pode não ter noutro estado ou país onde se fale português. No entanto, em face de fenômenos como aqueles a que aludi acima, uma pergunta salta logo aos olhos do leigo, a saber: quem está certo, afinal de contas, com relação ao verdadeiro sentido de palavras como, por exemplo, punheta ou cu? Nós, brasileiros, ou nossos amigos lusitanos? Ora, a verdade é que, dentre as coisas idiotas e infrutíferas com que os humanos adoram perder tempo, ocupa um lugar de destaque justamente a ignorância de se discutir certo ou errado em língua, sobretudo quando se adentra a esfera das perguntas imbecis do tipo: “Quem é que fala certo?” Afinal, o fato de punheta não significar para nós uma porção de bacalhau cru e desfiado não quer dizer que o sentido que damos à palavra esteja errado e que o de Portugal é que seja seu verdadeiro significado, ou vice-versa. Significa apenas que, pela via dos processos histórico-culturais que estas duas comunidades linguísticas percorreram independentemente, ambas acabaram dando ao mesmo vocábulo sentidos bem diferentes. Apenas isso! (A propósito, é claro que “meter cinco dedos no cu de alguém” tem conotações bem menos chulas ou pornográficas lá, na terra de Camões: significa tão somente “dar umas palmadas nas nádegas” da pessoa.)
Para citar só mais um caso sobre essas curiosidades linguísticas, eu mesmo passei por uma experiência semelhante quando, tendo chegado a Londres fazia pouco, ouvi um colega de trabalho dizer que outro funcionário do pub onde trabalhávamos estava no banheiro “blowing a fag”. Uma frase que, aos meus ouvidos à época habituados apenas ao inglês americano, deixou-me um tanto curioso com a ousadia desse empregado do pub, bem como com o grau de licenciosidade que de repente me pareceu haver entre os ingleses. Acontece que a frase em questão, que a um americano informaria que aquela pessoa estava no banheiro “fazendo sexo oral num homossexual” (em palavras bem mais vulgares, chulas), para um inglês quer dizer apenas que o sujeito em questão estava lá dentro “fumando um cigarrinho”. Enfim, exemplos não faltam, em se tratando de idiomas falados por distintas comunidades linguísticas em diferentes regiões do planeta ou até mesmo dentro de um mesmo país.
O fato é que a língua, como todo linguista está cansado de repetir, não é algo estagnado e imune às mudanças e inovações socioculturais. Além disso, palavras não fazem sentido em si mesmas; somos nós que damos sentido a elas. Logo, qualquer pretensão à propriedade do “falar mais certo” é tão ridícula quanto o é agir em relação às línguas como se novos sentidos não pudessem ser atribuídos a velhas palavras. As línguas evoluem, os vocábulos mudam, ganham novas acepções, novos usos, neologismos são cunhados, outros termos são abandonados, tornados arcaicos, obsoletos. Umas palavras ou expressões se mantêm num lugar, enquanto caem em desuso em outro. E assim sempre foi e será, a despeito do esperneio de muitos puristas conservadores que querem manter “a língua” (que é como chamam o que, na verdade, é apenas mais uma variedade por eles privilegiada) pura, irretocável, fixada em argila para a posteridade.
Mas, enfim… Embora tenha sido a impressão de fato deixada pelos parágrafos acima, este não é mais um texto falando sobre as variedades linguísticas, sobre o papel da norma culta (que, sim, tem seu valor sociocultural e deve ser ensinada aos falantes na escola, mas não é melhor nem pior do que nenhuma outra variedade de uso popular, pois, em termos objetivos e de uma perspectiva científica, não existe falar certo nem falar errado), nem é outro artigo sobre preconceito linguístico, visto que já editei um texto de Sírio Possenti sobre esse tema e não estou afim de ser repetitivo desnecessariamente. Na verdade, ainda que não tenha parecido, pretendo discorrer aqui sobre os vieses cognitivos humanos, ou melhor, sobre um deles em particular, que é o do ponto cego que faz com que sejamos capazes de enxergar nas outras pessoas a influência de seus próprios vieses cognitivos sobre suas crenças e comportamentos, mas impede-nos de enxergá-lo com relação a nós mesmos. Ou seja, quero falar daquilo que faz com que com nós ajamos e reajamos mais ou menos como se cada um se visse como um ser magicamente imune a algo a que todos os demais humanos estariam naturalmente sujeitos.
Okay! Você deve estar se perguntando agora por que então eu abri este texto falando de distintas acepções de uma mesma palavra entre falantes de um mesmo idioma? Bem, o fato é que, ao começar a escrever, tinha em mente o que disse outro dia uma minha professora de Direito — senhora já de meia-idade, uma dessas personalidades paradoxais que manifestavam ideias bem conservadoras nuns momentos e demasiado liberais noutras ocasiões —, que, comentando a nova realidade inaugurada com o reconhecimento da união estável entre homossexuais no Brasil por parte do STF, não se mostrou crítica à mudança no entendimento e na prática jurídicos, mas acabou trazendo ao contexto a seguinte observação:
Que agora essas pessoas possam até mesmo se casar legalmente, é apenas a aplicação clara do que determina a própria Constituição acerca da conversão da união estável em casamento. Não há o que se discutir. Mas uma coisa que eu não aceito é o que muitos juristas vêm expressando por aí, quando falam do assunto e acabam dizendo “o casal homoafetivo”. Ora, casal, não! Casal é só homem e mulher. Parceiros, eu concordo. Pois aquilo é uma parceria. Mas casal é só homem e mulher. Nada mais. A palavra casal é só para um par formado por homem e uma mulher. Só isso.
Bem, se a professora falou, está falado, não é mesmo? É óbvio que não! A verdade é que a “evidência” fornecida por ela em seguida, a fim de justificar sua afirmação — ou seja, o fato de que usamos o termo em questão cotidianamente para falarmos de pares compostos de macho e fêmea, ou de homem e mulher — simplesmente não serve para sustentar de forma objetiva e razoável uma afirmação tão estapafúrdia. Primeiro, porque a palavra casal não significa um par de macho e fêmea ou de homem e mulher; na verdade, sua etimologia leva ao termo casale do latim vulgar, que significava simplesmente “casa” e, com o tempo, por extensão de sentido, passou a designar os que viviam numa mesma casa. Apenas isso. A palavra não guarda originalmente nenhuma alusão a gênero ou a sexo, diferentemente de sua tradução inglesa couple, por exemplo, que remonta ao latim copula, tanto em sua denotação de “vínculo” quanto em sua conotação de “união carnal”, mas que, apesar disso, pode ser usada normalmente para se referir a casais homossexuais. Em segundo lugar, essa afirmação sobre a palavra casal significar somente um par composto de macho e fêmea ou homem e mulher é tão equivocada que, assim como em inglês couple pode ser usado para se referir a duas coisas assexuadas (como em “a couple of cards”) e pode até mesmo significar mais de dois (como em “a couple of days”), em português, mesmo em nossos dias, a palavra casal continua guardando as acepções de “povoado”, “casinha de sítio” ou “parelha” em geral.
Mas o interessante nisso tudo é que essa professora não só estava redondamente equivocada, como também fazia questão de insistir em que sua opinião é que era a “certa”, sendo o equívoco dos juristas, da imprensa e de quem mais fosse que estivesse usando a palavra casal para aludir aos pares homoafetivos. E não menos curioso é o fato de que muitos alunos concordaram de pronto com ela, o que me forçou inclusive a entrar num debate com um deles acerca desse ponto mais do que discutível. (E nem precisava dizer que na reação desses alunos — todos admitidamente religiosos e conservadores — estava claramente manifesto o viés intragrupo, isto é, nossa tendência a atribuir mais valor às crenças das pessoas percebidas como pertencentes ao mesmo grupo que nós, à mesma “tribo” ideológica, aos que compartilham de nossas crenças pessoais sobre o mundo, e menos valor à opinião dos que estão noutro grupo, dos que se encontram na “trincheira inimiga”.)
Pois bem. Não se haviam passado nem dois dias dessa aula memorável em que nossa professora decretou o sentido imutável da palavra casal, vi uma colega de curso postar no Twitter uma crítica um tanto irônica e desdenhosa às pessoas que acreditam em superstições, esse monte de “bobagens”. O curioso aqui é que se tratava de uma garota que já tivera longas discussões comigo por conta do ceticismo e do humanismo secular que advogo justamente por ela ser uma evangélica empedernida, dessas que todo dia enviam citações bíblicas aos seus contatos de redes sociais e acreditam na literariedade de várias passagens das ditas “escrituras sagradas”; passagens estas, aliás, de que católicos e outros protestantes já abriram mão de crê-lo faz tempos.
Naquela mesma hora, confesso que tive ganas de tuitar um conhecido trecho do Evangelho de Mateus. Afinal, hipérboles pouco originais à parte, uma frase atribuída a Jesus na Bíblia evoca precisamente esse tipo de viés cognitivo a que me refiro aqui: “Tira primeiro a trave do teu próprio olho, e então enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão.” O fato é que todos nós, humanos, estamos propensos a acreditar que nossas crenças, ao contrário das crenças alheias, estão sempre racionalmente fundamentadas, sendo a coisa mais lógica e autoevidente do universo; sempre percebemos nossas próprias crenças como algo tangível, legítimo, verdadeiro com certeza. Para nós, a inclinação natural é a de perceber que aquilo em que particularmente acreditamos não cede nem um tiquinho ao peso da dúvida, da incerteza. Nossas convicções, se não são aceitas por outros à nossa volta, é apenas por conta de uma limitação deles, não porque possam de fato ser inconsistentes nossas crenças. Ou seja, não é porque eles possam realmente estar certos sobre aquele ponto.
Mas o que falhamos mesmo em perceber com relação a isso é justamente que o inferno é constituído de certezas. Digo, o inferno na Terra para muitas pessoas são as certezas pessoais de outros. Nossa cegueira para as limitações e vieses cognitivos que em nós mesmos se verificam é o que causa grande parte do sofrimento de que padece a humanidade. E todos nós trazemos do útero essa cegueira. Eis o porquê de o dogmatismo e o fundamentalismo serem sempre tão perigosos — nada pior do que um fanático que se acha certo sobre tudo. E eis por que o pensamento científico é nossa via de racionalização mais segura e confiável para lidar com as limitações e falhas impostas por esses vieses em nossas mentes, tal como argumentou Michael Shermer num breve texto seu.
Bem… Após refletir sobre essa importuna questão, eis que me encontrava no trabalho esta semana, e um colega começou a falar comigo a respeito dessas seitas que vez e outra aparecem pregando a volta de Jesus (em sua missão profetizada de dar início às tribulações apocalípticas) na data específica X ou Y — e que vivem quebrando a cara justamente por causa de sua risível e absurda precisão com as datas. Ele até se lembrou de uma seita do gênero, surgida aqui mesmo, em Campina Grande, nos idos da década de 1980, falou da loucura que foi à época. E a conversa estava indo muito bem, até o momento em que ele decidiu arrematar sua crítica a tais movimentos fanáticos dizendo as seguintes palavras:
O pior é que nem sequer do ponto de vista bíblico isso faz sentido, já que qualquer um que conhece a Bíblia profundamente sabe que a volta de Jesus já aconteceu.
Não, não era uma piada. Ele estava mesmo falando sério. O fato é que, como fiquei sabendo então, ele próprio pertence a um grupo religioso que acredita que a interpretação das páginas da Bíblia dão bases sólidas para se concluir que Jesus já retornou do Céu, como anunciado no Apocalipse, e que já está em decurso o tempo de os pecadores enfrentarem tribulações e se arrependerem, a fim de que possam ainda conseguir, quem sabe, uma vaga na repescagem para o acesso ao Paraíso. É óbvio que, como religião e megalomania andam de mãos dadas, esse rapaz e seus irmãos de fé acreditam que têm uma missão especial nesse período atribulado: viver segundo a “Palavra” e pregá-la, a fim de arrebanhar novos conversos; eles são nada menos do que agentes da salvação nesta suposta fase apocalíptica em que já nos encontraríamos.
A ideia de que ele próprio possa estar vivendo em conformidade com crenças tão ridículas e absurdas quanto as daquelas seitas do fim do mundo no dia tal, que ele criticava e menosprezava pouco antes, pelo visto nunca lhe ocorreu. Tanto esse rapaz quanto aquela minha colega de curso, ou a professora de que falei, reconheciam a perspectiva limitada dos outros, no entanto, ao mesmo tempo ignoravam a grande trave diante dos próprios olhos, como teria dito o mesmo Jesus cultuado por eles. Para todos, em se tratando de crenças, o engano era sempre propriedade inerente ao alheio. E o pior é sabermos que esse tipo de cegueira para as próprias crenças afeta igualmente políticos, operadores do direito e teóricos ou formadores de opinião, que pavimentam a estrada que leva ao futuro do Estado e do ordenamento jurídico a que nos submetemos. É lamentável pensar que nosso porvir está nas mãos de pessoas incapazes de reconhecer as limitações a que todos nós, humanos, estamos propensos. Incapazes justamente porque estão certas da verdade de suas convicções.
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Mudando um pouco de assunto, nunca pensei que veria uma antropologa escrevendo um troço desses, mas é por estar aposentada, então nao precisa mais ter o rabo preso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012003000100003