Autor: Camilo Gomes Jr.
Também publicado em: Bule Voador

"Cortina de Fumaça" (2010), de Rodrigo Mac Niven.
Depois de uma noite de insônia, levantei-me naquela manhã fria sentindo o corpo moído, uma dor de cabeça dos diabos, uma ânsia de vômito e aquela angústia frustrada de quem sabe que a realidade o vencera mais uma vez. Eu havia tentando. Havia mesmo! Só que não dava mais. Precisava de ao menos um pouco, pois a sensação era de que, se não o conseguisse — e rápido —, eu simplesmente enlouqueceria. Não era capaz de mudar de foco, de exorcizar da mente aqueles pensamentos tentadores, nem de calar o apelo desesperado de meu corpo. Ler? Nem pensar. A tevê, em vez de me distrair, me irritava. E muito. Não tinha jeito senão sair à procura de mais. E nem precisei ir tão longe, na verdade: a duas quadras de minha casa, eu consegui encontrar. Comprei apenas um pacotinho e voltei às pressas, as mãos tensas, a vontade de vomitar aumentando. Em casa, preparei um pouco numa correria desatinada, e quando, enfim, experimentei, senti a sensação que desesperadamente buscava, aquele prazer de atingir o zênite de um gozo superorgástico e assexual, aquela paz interior que outros menos céticos chamariam de atingir o nirvana; eu chamava apenas de satisfação. Porém, depois de alguns instantes, passado êxtase indizível daquele momento tão intenso e tão breve, veio a consciência derrotista de ter de ter perdido mais uma luta, de ser obrigado a aceitar de vez minha condição. Eu era mais um viciado. Reconhecê-lo era uma verdade inesquivável àquela altura. Várias vezes ao dia, eu dependia de um pouco, pois só assim me mantinha equilibrado, só assim conseguia voltar a cuidar das coisas em minha vida. Sim, sim. Eu estava totalmente viciado. E, naquela manhã fria, meus amigos, só me resta lhes confessar que eu não resisti a tomar mais uma xícara de café.
Como? Pensou que eu estava falando de droga? Mas era disso mesmo que eu falava. Estava falando de nada menos que uma droga sabidamente viciante, psicoativa, estimulante do sistema nervoso central e de que há inúmeros registros de overdose no mundo inteiro, das quais algumas são fatais, meu amigo (vide, p. ex., HOLMGREN, Per; NORDÉN-PETTERSSON, Lotta; AHLNER, Johan. Caffeine fatalities: four case reports. Forensic Science International, v. 139, n. 1, p. 71-73, 6 jan. 2004). Eu estava falando da cafeína, sim, essa droga perigosa em que me viciei. É claro que não poderia ser de algo como, p. ex., a maconha, de que não sou usuário, mas sobre a qual sei que não existe no mundo inteiro, até o momento, nem um únicoregistro de morte por overdose. Portanto, o assunto era mesmo sobre drogas, você estava certo; sobre uma droga de efeitos muito mais nocivos do que os que se podem associar ao consumo da mal-afamada e criminalizada Cannabis sativa. Agora, que essa droga de que eu falava seja de uso e comércio legalizados, enquanto a maconha, não, já é uma outra velha história. Ou melhor, trata-se de um assunto polêmico cujo debate simplesmente não cessa, mas que a ignorância, voluntária ou involuntária, faz com que não avance de forma alguma, numa sociedade conservadora e hipócrita como a nossa.
De qualquer modo, apesar do forte preconceito que já se impõe previamente ao debate do tema, alguns canais de informação vez e outra discorrem sobre ele a partir de um ponto de vista favorável à descriminalização, como já o fez o Bule Voador em mais de um de seus posts, de que se podem citar como exemplos o texto do Eduardo Patriota, em que foram apresentados alguns argumentos favoráveis à descriminalização da maconha e os do Alex Rodrigues sobre a Marcha pela Legalização da Maconha e sobre a própria necessidade de debater essa questão. Neste segundo texto do Alex, aliás, o leitor encontra links para outros tantos artigos e matérias sobre o assunto, alguns de leitura que eu diria “obrigatória” para quem quer debatê-lo com seriedade. Isso para não mencionar os enriquecedores elementos trazidos à baila por alguns comentaristas aos posts desse blog da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), como, p. ex., os dados muito pertinentes que foram apresentados por Francisco Boni, na seção de comentários do primeiro texto do Alex, citado acima, o qual discorre sobre a marcha. Portanto, é justamente por estarmos empenhados em divulgar e defender a necessidade desse debate no Brasil que, como não podia ser diferente, decidimos agora recomendar a nossos leitores o excelente documentário Cortina de Fumaça: Você precisa ouvir o que eles têm a dizer (Brasil, 2010, 88 min, disponibilizado na íntegra no YouTube), do diretor carioca Rodrigo Mac Niven:
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Sobre este longa, à parte o mimimi esperado de alguns veículos de imprensa de reconhecida tônica conservadora, alguns críticos que elogiaram o documentário ressaltaram todavia que seu único pecadilho teria sido o de constituir uma obra panfletária pró-descriminalização das drogas (sobretudo da maconha), focando-se na apresentação da versão favorável de cientistas médicos, neurocientistas, especialistas em toxicodependência, juízes, criminalistas, cientistas políticos, historiadores e políticos renomados, sem reproduzir o discurso da oposição, dos que defendem a manutenção da criminalização das drogas tal como está. Bem, estando a crítica devidamente registrada aqui, eu gostaria de dizer que discordo de que isso seja uma falha do longa. E explico-me: todo mundo já conhece o chororô paradoxal dos que acham que não há nada de mais no fato de drogas danosas e letais como a cafeína, o tabaco e o álcool terem seu uso e comércio permitidos e regulamentados por lei, mas insistem em que é um absurdo, uma imoralidade, que se fale em legalizar as outras drogas hoje ilegais no Brasil. A meu ver, não traria nenhum incremento qualitativo ao documentário de Mac Niven a inclusão de entrevistas com o Jair Bolsonaro, o Datena e o Pr. Silas Malafaia, p. ex. Quer dizer, é o que penso. Quem discorda tem todo o direito de recorrer aos depoimentos de figuraças como essas e se inteirar do que sustentam acerca da questão, até porque é algo fácil de fazer. A verdade é que não faltam arquivos textuais e audiovisuais na internet em que “a voz da oposição” se faça ecoar.
A propósito, é exatamente por isso que acho que Cortina de Fumaça está perfeito como se encontra produzido. Na internet, nas revistas semanais, nos telenoticiários e nos jornais impressos, o que mais facilmente se encontra é a versão do contra, a versão dos que profetizam que a legalização das drogas trará o Armagedon bíblico a esta bendita Terra de Santa Cruz. Que todos vão se dopar, roubar, matar, estuprar, destruir os outros e a si mesmos. Que legalizar as drogas não vai senão causar a degradação final de nossa sociedade, realizando todos os vaticínios dos mais delirantes urubus pessimistas e catastrofistas. Não, não dá trabalho algum ter acesso a esse discurso. Aliás, é fácil encontrar também aquele discurso de oposição aparentemente mais sóbrio, mais “racional” e menos “pentecostal”, como o que traz o velho argumento de que
o estado não tem de gastar um tostão com viciados. Eles não podem “escolher” ter o barato — seja lá com que porcaria for — e depois bater às portas do estado (a coletividade) para pedir socorro (Reinaldo Azevedo, “Escarnecendo dos brasileiros”, em seu blog no site da Veja, post do dia 08 maio 2011).
Agora, o curioso é que essa mesma linha de raciocínio vale também para os viciados em tabaco, álcool e cafeína, que todavia podem “escolher ter o barato” com sua porcaria particular e depois vir “bater às portas do estado para pedir socorro”. Quer dizer, se o problema é mesmo esse, então não vejo por que o Reinaldo (e outros que usam o mesmo argumento) não defendem também a criminalização dessas outras substâncias. Afinal, se é para ser coerente com a lógica desse pensamento, tudodeveria ser proibido. Por outro lado, se é para continuar sendo intelectualmente desonesto, então basta que o Reinaldo Azevedo (e cia.) continue fazendo o que sempre fez. (Lembrando que este colunista-blogueiro da Veja escreveu num texto recente que gostava muito da jovem cantora britânica Adele — que de fato é sensacional — e acrescentou: “pouco me importa se ela bebe cinco litros de vodka depois do show” — referindo-se aos sabidos problemas dessa talentosa jovem com o álcool. Acontece, Reinaldo, que, se ela também cheirasse cocaína ou fumasse maconha, você tampouco deveria se importar com isso, como deu tanta importância ao falar de Amy Winehouse.)
Mas, enfim, a ideia é justamente essa: cafeína, tabaco e álcool, embora sabidamente danosos à saúde de quem deles faz uso contínuo, não são vistos como um “problema sério” que a lei não pode deixar de criminalizar e cujos viciados o Estado deva negligenciar. Porém, no que diz respeito às demais drogas, mesmo as que são bem menos danosas que essas drogas legais (em mais de um sentido), a satanização pelo visto deve prosseguir como de costume, porque… Bem, porque sim! Ponto final.
Pois é para se contrapor a essa visão tão amplamente difundida que o documentárioCortina de Fumaça entra em cena. Clara e elogiavelmente preocupado em falar da relação histórica e cultural da humanidade com as drogas, bem como discutir os motivos político-sociais envolvidos no contexto das leis proibicionistas, além de discutir o que é verdade e o que é mito comprovado no que se refere ao assunto, Rodrigo Mac Niven entrevista historiadores, autores estudiosos da história das drogas, cientistas médicos e neurocientistas que já estudaram os efeitos das drogas no cérebro e no corpo, juízes, profissionais e acadêmicos da área jurídica, autoridades da área de segurança pública, políticos notórios (como o sociólogo e ex-presidente FHC e o jornalista e deputado federal Fenando Gabeira) e cientistas políticos. Todos apresentam motivos histórico-culturais, científicos, jurídicos e mesmo de política pública para que as drogas sejam descriminalizadas e tenham seu comércio e uso devidamente regulamentados.
Um entrevistado lembra, a propósito, que a própria religião cristã se fundou sobre o rito de consumo de uma droga em especial: o vinho. (E só para deixar claro que, se não vemos tal bebida como uma droga, é justamente por ser legal entre nós, basta recordar que em mais de uma ocasião a fabricação, venda e transporte de vinho foram proibidos por lei nos EUA, p. ex., juntamente com os de outras drogas.) Mas, ainda assim, como demonstrado no longa, vivemos numa sociedade onde todos convivem muito bem com bêbados que estupram, assassinam parentes ou causam acidentes de trânsito fatais, mas ninguém fala em criminalizar as bebidas alcoólicas e, sim, em responsabilizar os que cometem tais delitos. A questão é: por que então o raciocínio é diferente, quando se refere às drogas hoje ilegais, em especial à maconha?
Como podemos continuar tão obtusos e intransigentes, p. ex., com relação aos já comprovados benefícios medicinais e terapêuticos da maconha, ao ponto de acharmos que agiu certo o Estado ao indiciar como “traficante”, como criminoso, o gaúcho Alexandre Thomaz, entrevistado no longa, que cultivava a Cannabis sativa em sua horta particular apenas para poder aumentar seu apetite e enfrentar a depressão (substituindo as drogas controladas que lhe haviam sido prescritas), durante o agressivo tratamento químio e radioterápico com que venceu um câncer no pescoço? Como a intolerância e a ignorância podem sair vencedoras, sob um Estado democrático de direito, enquanto sucumbem o bom senso e o conhecimento científico?
Somos confrontados com todas essas indagações em todos os textos que foram aqui citados (e que recomendo aos leitores), e, em especial, nesse excelente documentário, Cortina de Fumaça. Os dados que são tão frequentemente ignorados pelos que se opõem à legalização das drogas estão aí, em todas essas fontes referenciadas e no documentário disponibilizado na íntegra no YouTube. Convido aos leitores que leiam as fontes recomendadas, que assistam ao longa e que reflitam sobre essa questão que, inevitavelmente, teremos de enfrentar neste século, decerto mais cedo do que muitos imaginam.
Concluo este texto citando as sábias palavras de um juiz espanhol destacadas logo no início do documentário:
Algum dia, quando a descriminalização das drogas for uma realidade, os historiadores olharão para trás e sentirão o mesmo arrepio que hoje nos produz a Inquisição.
— Javier Martinez Lázaro. Juiz Penalista. Madri, Espanha.


Excelente postagem. Você escreve muito bem. Obrigado por compartilhar o link do documentário, é muito bom.
abraços
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Eu é que agradeço, Hugo!
Valeu mesmo pelo feedback quanto ao post. E o longa, achei-o uma preciosidade em nosso cinema documentarista, sobretudo pelo pioneirismo em fazer uma cobertura tão ampla da perspectiva favorável à legalização, expondo seus argumentos por vários prismas (histórico, político-jurídico e científico).
Abração.