
Foto: Roberto Setton - Revista Exame.
ANTES DE TUDO, que uma coisa fique bem clara: não sou contra o Bolsa Família. Mas tenho sérias objeções à forma como este foi implementado. Digo, embora programas sociais — em especial, um grande programa de transferência de renda —, não sejam nenhum mimo do Estado para com o povo, mas, sim, uma necessidade urgente, num país onde 12% da população “vivia” — leia-se sobrevivia sabe-se lá como — em situação de extrema pobreza, antes do acesso ao benefício em questão,[1] o problema é que, como diz um velho e surrado adágio popular, “o diabo está nos detalhes”.
De Bolsa a Bolsa[2]
A história do Bolsa Família remonta às origens do antigo Bolsa Escola, no ano de 1994, quando foi proposto por Cristovam Buarque (à época filiado ao PT, hoje no PDT), durante a corrida eleitoral para o governo do Distrito Federal. Sua ideia inspirou — segundo Antonio Vital — o Programa de Garantia de Renda Familiar Mínima (PGRFM) concebido no município de Campinas (SP) pelo então prefeito José Roberto Magalhães Teixeira (PSDB). O projeto de Teixeira foi votado pela Câmara Municipal em primeiro turno, em dezembro de 1994, e, em segundo turno, em janeiro de 1995, logo após Cristovam ser empossado em Brasília. Aos 11 de janeiro, Cristovam instituía o Bolsa Escola no DF, quase ao mesmo tempo em que o PGRFM era colocado em prática em Campinas.
Pelo PGRFM, pagavam-se ao beneficiário R$ 15,00 (quinze reais) por filho (até o número máximo de três), exigindo como contrapartida, além de residência fixa em Campinas: 1) matrícula desses filhos no ensino fundamental e frequência escolar de, no mínimo, 75%; 2) registro do beneficiário no Cadastro Único, do governo federal, e 3) que a família tivesse renda per capita inferior a R$ 90,00 (noventa reais) — à época, o valor máximo do benefício, isto é, R$ 45,00, equivalia a cerca de meio salário mínimo.
No Distrito Federal, por sua vez, o (em breve premiado programa) Bolsa Escola pagava um salário mínimo às famílias carentes com renda per capita inferior ou igual a meio salário. Como contrapartida, além da residência fixa em Brasília ou em alguma cidade-satélite do DF e da renda mínima supramencionada, eram exigidas 1) frequência no ensino fundamental de, no mínimo, 90%, e 2) a inscrição dos adultos desempregados da família no Sistema Nacional de Empregos (SINE).
Com o sucesso do Bolsa Escola, em especial no Distrito Federal, o governo FHC resolveu implantá-lo como um programa federal, em 2001. Porém, adotou-se então não o modelo concebido pelo governo petista no DF, mas, sim, o do PGRFM, da prefeitura de Campinas, projeto de uma administração do mesmo partido do governo federal, o PSDB. Devido a essa decisão, não tardou para que críticos, dentre eles o próprio Cristovam, destacassem as falhas do programa implantado pelo governo FHC, que, em sua opinião, seriam: 1) o fato de a fiscalização da frequência escolar ter sido estendida para acontecer a cada três meses (para Cristovam, a verificação deveria ser mensal); 2) a implantação simultânea, não gradativa, do Bolsa Escola em todo o território nacional, o que não permitia o desenvolvimento paralelo de um sistema de fiscalização eficaz, e 3) o fato de o governo calcular o benefício pelo número de filhos — no Distrito Federal, pagava-se uma única quantia (um salário mínimo) a toda família cadastrada, independentemente do número da prole.
Finalmente, em 2003, o governo Lula, incorporando num só três programas sociais da era FHC (o Bolsa Escola, o Auxílio Gás e o Cartão Alimentação), criou o Bolsa Família, em vigor desde então. Depois disso, ao longo da era Lula, a combinação de fatores como a melhoria do mercado de trabalho, o aumento de ganhos reais da moeda nacional e programas sociais como o que aqui se discute logrou içar para fora do fosso da miséria extrema milhões e milhões de brasileiros, para usar uma frase clichê do ex-presidente, “como nunca antes na história deste país”.
O efeito “carona”
Economistas, formuladores de políticas socioeconômicas e psicólogos evolucionistas já estão bem familiarizados com o chamado free-riding effect, o efeito “carona”, que integra o léxico associado à Teoria dos Jogos.[3] Trata-se da seguinte estratégia: uma parte expressiva do grupo social contribui para que determinada política de benefícios seja sustentável, de modo que tais benefícios favoreçam aos contribuintes, coletivamente; acontece, porém, que a manutenção desse ciclo de sustentabilidade, é claro, gera seu custo para cada contribuinte, de forma individual; em face disso, é possível (e ocorre) que uma e outra pessoa calculem que, se não contribuírem também, podem, ainda assim, receber o benefício, que é distribuído a todos os que se enquadram na categoria a que este se destina, sem ter de arcar com custo algum. Estes são os chamados free-riders, ou seja, os “caronistas”. Enfim, o conceito é conhecido. E a prática, também.
A seu respeito, entretanto, é sempre conveniente lembrar o que destacou Robert Reich:
O poder coletivo dos talentos e recursos de todos é maior do que a simples soma dos talentos e recursos individuais envolvidos. No entanto, cada pessoa está ciente de que pode ficar em bem melhor situação se todos, exceto a própria, agirem visando ao bem-comum, de modo que ela possa se beneficiar do resultado sem ter de sustentar qualquer parte do fardo mútuo. Se cada um seguir essa lógica e racionalmente optar por seu ganho pessoal às custas de todos os outros, não haverá cooperação. Todos acabarão numa pior situação. O que é racional para um indivíduo é tragicamente irracional para a sociedade como um todo.[4]
“O que é racional para um indivíduo é tragicamente irracional para a sociedade como um todo.” Eis um importante detalhe que nunca se deveria perder de vista.
Mas, enfim, continuando… Essa atitude oportunista não é cria do famigerado “jeitinho” brasileiro, caso algum leitor tenha aventado a hipótese. Parece, mas não é. Comportamento semelhante é também observado em outras espécies animais, embora, com exceção de algumas medidas punitivas que certos primatas tomam contra membros do grupo que violem normas pró-sociais,[5] os humanos pareçam ser a única espécie naturalmente inclinada a punir os “caronistas” cujo comportamento traga prejuízo a terceiros.[6] Uma propensão que não vem sendo colocada em prática entre nós, brasileiros, infelizmente.
O fato é que a existência desse tipo de conduta não desejável cria um inegável problema. Vejam bem: caso as políticas sociais de um Estado, em vez de exigirem contribuições — que viabilizem o ciclo, que o tornem sustentável — ou algum outro tipo de contrapartida — que conduzam a uma meta almejada a médio e longo prazos, justificando, assim, o alto custo desses programas —, acabem condicionado o recebimento do benefício ao cumprimento de poucas e simples ações ou de ações cuja eficácia na promoção da emancipação seja, no mínimo, questionável, os “caronistas” encontrarão aí sua oportunidade de agir. Principalmente, se o programa for fiscalizado com notória ineficiência.
No caso específico do Bolsa Família, na forma como se deu sua implementação, vemos serem criadas as condições para ao menos dois problemas relacionados às questões acima: 1) a fiscalização deficiente, que vem sendo denunciada tão amiúde nos veículos de imprensa,[7] acaba dando margem para que alguns oportunistas se aproveitem do programa, sem cumprir nenhuma contrapartida,[8] e 2) as contrapartidas exigidas, por sua vez, não parecem conduzir os beneficiários à independência desse tipo de programa social, nem a médio nem a longo prazo. Neste segundo ponto levantado, encontra-se uma das questões mais passíveis de crítica, ao meu ver, no tocante ao Bolsa Família, na maneira como o conceberam.
A educação no Brasil, ou sobre a síndrome da Malhação
Pensem em qualquer país que, em poucas décadas, na história recente, tenha conseguido se catapultar da situação de nação marcada pelo analfabetismo, pela extrema pobreza de milhões e pelo fraco desenvolvimento socioeconômico à condição de “estrelas” na reversão desses mesmos fatores. Pensaram em quem? Na Coreia do Sul, o “milagre” educacional da Ásia?[9] Na Irlanda, que, de exportadora de imigrantes pobres e analfabetos, tornou-se em economia de peso na União Europeia, graças a uma verdadeira revolução educacional?[10] No Chile, onde os alunos hoje têm, em exames internacionais, a mais alta pontuação dentre os latino-americanos, nas provas de ciências e de leitura, e a segunda melhor nota em ciências exatas?[11] Enfim, em quem pensaram? Na Finlândia, quem sabe?
Bem, uma coisa é certa: não foi o Brasil que lhes veio à mente, quando fiz essa pergunta, a não ser que tenham uma visão um tanto ignorante das transformações por que passaram países como os citados acima, no que diz respeito à legítima revolução que levaram a cabo em seu sistema educacional. Não foi (nem pode ter sido) o Brasil por um motivo bem simples: o problema da educação por aqui é como a Malhação, da Rede Globo — uma novela que não tem fim! São professores mal pagos, mal formados — às vezes, esta segunda condição em virtude da primeira, outras vezes, devida a puro comodismo, diante da falta de exigência de aprimoramento na qualificação —, são escolas com carência de recursos materiais, é a controversa questão da isonomia salarial dos educadores, que muitos argumentam que nivela “por baixo os salários” e despreza o mérito individual, o que desmotivaria o professor a se aprimorar mais.[12]
Isso, para não falar da situação dos alunos, propriamente ditos: desmotivados, empurrados para a escola no mais das vezes para lá ficarem apenas “de corpo presente”, só para responder a chamada, sem estímulos que os induzam ao aprendizado e ao encantamento com o conhecimento, sem cobrança com relação a suas notas — o que deveria, sim, ser uma preocupação, pois, se muitos pedagogos decidiram demonizar a meritocracia na escola, isso não muda o fato de que a vida em sociedade, a vida no mundo real, é altamente meritocrática. (Pergunta: é uma boa aposta uma educação que prepara os alunos para um passeio com Alice no País das Maravilhas, mas omite-lhes os reais desafios que vêm com a adultícia, esconde-lhes o ambiente competitivo que os aguarda no mundo fora da escola?) Aliás, por falar em notas, quem não sabe ainda o que está havendo na maioria das escolas públicas deste país? Quem ainda não se deu conta do embuste criado pela aprovação automática de alunos deficitários, dentro dos polêmicos ciclos de progressão continuada?[13]
A questão é simples: não há mudança positiva viável para um país, se esta não toma a educação como um de seus pilares sustentadores que mais precisam de fortificação, de investimento pesado, para sairmos das metáforas e falarmos bem claramente.[14] Mas não só investimentos: é preciso que programas sociais, de algum modo, contribuam para esse processo de imprescindível mudança no sistema educacional. É aí que o Bolsa Família, na forma como se encontra implementado, mais atrapalha do que ajuda.
O programa, em vez de seguir aprimorando o Bolsa Escola como implantado no Distrito Federal, não só diminuiu a exigência de frequência dos alunos de 90% para 85%, como deu o maior tiro no pé que poderia ter dado: em lugar de adotar a ideia do Cristovam Buarque, de pagar um único valor à família, independentemente do número de filhos, como uma espécie de salário pago pela manutenção dos filhos na escola, adotou o critério da prefeitura de Campinas, como já disse antes — o de aumentar o valor, segundo o número de filhos, até o limite de três. Se no primeiro caso a medida funcionava até como política de desestímulo à natalidade desenfreada, no segundo, ela a incentiva.[15]
Resumindo, somem o ciclo de progressão continuada (e a infame aprovação automática),[16] os problemas materiais e de formação dos profissionais nas escolas, a política de se pagar a Bolsa Família conforme o número de filhos, nenhuma exigência de contrapartida realmente focada no desempenho da criança na escola, a fiscalização falha do Estado, as fraudes no sistema etc. O resultado desse cálculo decerto preocupará qualquer um com o mínimo de sensatez. Nesse sentido, se o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) alardeia, por um lado, como ótimas notícias, o fato de que 60 mil famílias devolveram o cartão da bolsa voluntariamente, por outro lado, sabemos que a maioria dos demais só o fez porque foi obrigada a fazê-lo. Além disso, devemos lembrar que estamos falando de 60 mil num contingente de mais de 11 milhões de famílias beneficiárias.[17]
Consideremos ainda a matéria de O Estado de S. Paulo divulgada esta semana no Bule Voador, a qual informava que os “beneficiários do Bolsa Família passam menos tempo no emprego e, quando o perdem, demoram mais para encontrar nova vaga com carteira assinada.” [18] Como muitos leitores do blog, perspicazes, não hesitaram em notar, nem todos os que entram nessa estatística são “caronistas” que querem tirar proveito do programa sem arcar com qualquer custo em contrapartida (embora não haja motivos para não suspeitar que alguns de fato o sejam). Muitos já não tinham emprego antes do Bolsa Família por não terem qualificação educacional e profissional.
Nesse sentido, em que o programa mudou sua situação? Em nada. E seus filhos, que precisam apenas “frequentar” a escola para garantir o benefício? Será que pelo menos na qualificação desses o impacto será positivo, permitindo divisar uma luz no fim do túnel quanto à sua futura emancipação perante os programas do Estado? Se levarmos em conta alguns dados já disponíveis, é difícil que essa expectativa se concretize. Segundo uma pesquisa encomendada pelo próprio MDS, o Bolsa Família até que refletiu num aumento da frequência escolar (óbvio!); no entanto, o desempenho dos alunos ficou muito aquém do desejável.[19] Na verdade, o desempenho dos alunos de escolas públicas brasileiras, se comparado mesmo ao de alguns vizinhos, como Argentina e Uruguai, é preocupante… Ou melhor, é desesperador! (Acho que convém lembrar que o relatório “Educação para todos”, da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – Unesco, mostrou que “a baixa qualidade do ensino nas escolas brasileiras ainda deixa milhares de crianças para trás e é diretamente responsável por manter o País na 88ª posição no Índice de Desenvolvimento Educacional [IDE], atrás de países mais pobres como Paraguai, Equador e Bolívia.”)[20]
O Bolsa Família: estaríamos melhor sem ele?
Neste exato momento, milhões de brasileiros estão comendo. Pode parecer ridículo dar ênfase a um detalhe tão trivial, mas a questão é justamente essa: é trivial para mim e para você; não para essa multidão de compatrícios nossos que sobreviviam, sabe-se lá como, com uma renda inferior a R$ 70,00 (setenta reais) por mês — os classificados como “em situação de extrema pobreza”. Programas como o Bolsa Família, meus amigos, mesmo com a quantia aparentemente tão irrisória que constitui o teto do benefício, provocou uma mudança muito, muito significativa na vida dessas pessoas que mal tinham o que comer.
Programas de transferência de renda e outros programas socioassistenciais como esse são indispensáveis num país que pretenda associar desenvolvimento econômico a desenvolvimento humano. Quem não reconhece isso é cínico ou ignorante — e não sei qual opção é pior. Nossa amiga, Meire Gomes, coeditora do Bule Voador, escreveu um texto que vale a pena ser lido, no qual discorre sobre a importância desses benefícios concedidos pelo Estado, num país como o Brasil.[21] Ademais, para aqueles que acusam tais programas de serem “populistas”, gostaria de lembrar uma coisinha óbvia: populismo não é atributo de algo; é um tipo de uso que desse algo se faz. É possível que governantes utilizem programas sociais de maneira populista? É claro que sim! Mas isso não faz do programa em si o problema; este reside na conduta de quem assim procede.
“Mas e aí, Camilo? Então estaríamos melhor com o Bolsa Família do que sem ele? É isso?”
Eu não diria “melhor”. Mas as coisas, com certeza, estariam piores sem o programa, sobretudo para aqueles milhões que viviam na linha da extrema miséria. Acontece que, com o Bolsa Família, na forma como foi implementado, conseguimos apenas estar em menos pior situação. Tivemos uma mudança notável no IDH (o Índice de Desenvolvimento Humano), mas o desvio de foco do programa em relação a priorizar a educação fez com que os índices desta não acompanhassem os passos daquele.
Assim, o resultado é que, neste momento, meus amigos, apenas um em cada quatro brasileiros consegue ler este texto, com um mínimo de eficiência esperada. Dentre os que são incapazes de fazê-lo, “38% conseguem apenas localizar informações explícitas em trechos pequenos, 30% só são capazes de ler e escrever períodos curtos, e os demais são completamente analfabetos”.[22] Não há revolução possível para este país — pelo menos não uma que realmente valha a pena ver acontecer, uma que consiga promover verdadeira independência dos programas sociais para as futuras gerações — que não passe por uma drástica reforma do sistema educacional. Se isso não mudar, se nossos alunos continuarem tendo um desempenho pífio em matemática, ciências e — o que é apavorante — em leitura, interpretação de texto e produção textual, como conseguirá o Brasil o status que tantos de seus governantes dizem almejar: o de país que deu certo?
Se programas como o Bolsa Família não forem repensados, no sentido de contribuírem para alcançar essa meta, se o modelo pedagógico adotado nas escolas públicas brasileiras não for também reformulado, de modo a levar em conta nossa natureza não de anjinhos idealizados, mas de animais autointeressados que podem não agir da maneira desejável sem a coerção ou a exigência condicionante para que o façam, continuaremos apenas jogando dinheiro num saco sem fundo. Se as coisas não mudarem nesse sentido, de nada adiantará estar no BRIC, no G20, ou talvez conseguir no futuro uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
O desenvolvimento socioeconômico e o prestígio internacional nos interessam — em especial a nós, humanistas seculares — apenas se acompanhados de um notável desenvolvimento humano, em seus mais variados aspectos. E isso, sem uma verdadeira revolução educacional, jamais passará de uma quimera, meus caríssimos!
NOTAS
[2] Fontes: Wikipédia (Bolsa Escola), Wikipédia (Bolsa Família); O Estado de S. Paulo 1, O Estado de S. Paulo 2, VITAL, Antonio. É possível: as realizações do engenheiro Cristovam Buarque rumo a uma nova esquerda. São Paulo: Geração Editorial, 2006, e AGUIAR, Marcelo; ARAÚJO, Carlos H. (Org.). Bolsa-Escola: eduacation to confront poverty. Brasília: Unesco, 2002.
[3] Vide: Wikipédia (Teoria dos Jogos).
[4] REICH, Robert B. The next American frontier. Nova York: Times Books, 1983, p 280, tradução minha.
[5] BOEHM, Christopher. Conflict and the evolution of social control. Journal of Consciouness Studies. Thoverton, GB: Imprint Academic, v. 7, n. 1-2, p. 79-101, 2000.
[6] GÄCHTER, Simon; HERRMANN, Benedikt. Human cooperation from an economic perspective. In: KAPPELER, Peter M.; SCHAIK, Carel P. van (Ed.). Cooperation in primates and humans: mechanisms and evolution. Berlin: Springer-Verlag, 2006, cap. 15, p. 275-302.
[8] Embora haja muita história inventada sobre esses “casos”, exagerando seu número, houve de fato flagras de beneficiários do programa usando o dinheiro para comprar cigarros, bebidas e, até mesmo, para pagar dívida de droga a traficantes. Vide, por exemplo: O combatente.
[9] Vide: Diário do Grande ABC.
[10] Vide: Jornal Nacional (vídeo).
[11] Fonte: Wikipédia (Educação no Chile).
[12] Vide, p. ex.: Informativo da AJU.
[13] Eu mesmo já tive contato com escolas públicas de distintos portes, em dois estados do país, e pude ver de perto como a coisa funcionava em cada uma delas: alunos que não estudavam e nem queriam estudar; professores que ou não queriam se esforçar para ensinar ou, quando queriam, não tinham recursos nem condição de lidar com os indisciplinados e sem interesse, num ambiente em que o professor não pode mais dar notas baixas (pois, se der, depois terá de passar o aluno de um jeito ou de outro), nem pode expulsar de sala aquele que perturba o resto da classe (pois logo vem o diretor, ou o supervisor, lembrá-lo de que alunos não devem mais ser mandados para fora da sala de aula); e estes são apenas alguns dos problemas criados pela combinação dos ciclos de progressão continuada com a exigência do Bolsa Família, de que o aluno só precisa “frequentar” as aulas — assisti-las e aprender as lições não são igualmente requeridos. Sei que existem estatísticas positivas sobre os ciclos, mas também sei que há quem as contradiga, em especial, a maioria dos professores, os quais vêm tendo uma experiência um tanto difícil com esse modelo pedagógico idealizado para “bons selvagens” rousseaunianos, não para as criaturas hobbesianas que as ciências descobriram ser nossa natureza. Não admira que este seja um ponto em que há políticos e intelectuais tanto da direita como da esquerda de acordo, numa posição contrária à aprovação automática. Será que preciso lembrar aqui que, em sua malograda disputa eleitoral pelo governo de São Paulo, Aloizio Mercadante (PT) criticou abertamente essa prática na educação, chamando-a, inclusive, de “pedagocídio”, o “suicídio da pedagogia”?
[14] A Coreia do Sul, quando resolveu mudar sua história — logo após a devastação causada pela guerra com a outra Coreia, no início dos anos 1950 —, tomou uma séria decisão que muito ajuda a explicar sua invejável condição atual: seu governo investiu 10% do PIB exclusivamente na educação, por uma década inteira. No Brasil, investe-se cerca de 5% do PIB em educação; porém, diferentemente do que ocorre nos países que revolucionaram seu sistema educacional, aqui, o investimento é menor no ensino básico e maior, muito maior, no ensino superior. O que é uma completa inversão da ordem de fatores que, nesta operação, alteram o produto! O ensino superior recebe quase sete vezes mais verba do que a escola básica (Vide: Revista Nova Escola, e ANDIFES).
[15] E que não me venham com essa de “Ninguém vai querer ter mais filho só para fazer a Bolsa chegar ao teto de duzentos reais, porque isso não dá para nada!”, pois desse modo se ignora um importante detalhe para o qual os “caronistas” não fecham seus olhos. Detalhes que pude testemunhar pessoalmente, há dois anos, quando trabalhei para a prefeitura de uma cidadezinha do leste de Minas Gerais. O que acontece, meus amigos, é que, quando dizemos família, não devemos ter em mente apenas aquela noção estereotipada — pai, mãe, filhos. Há muitas mães solteiras ou pais adolescentes que vivem com outra família (a da mãe ou a do pai da criança), todos numa mesma residência. Nesses casos, apesar de todas as “regras do jogo”, não é incomum haver um e outro parente que recebem outros benefícios (não raro, há um ou mais aposentados ou pensionistas vivendo com o beneficiário do Bolsa Família) — o que só ocorre porque, na falta de fiscalização eficaz, muitos fingem morar sozinhos, quando se candidatam ao benefício, a fim de se enquadrarem nos requisitos de renda mínima familiar, enquanto se esquivam do monitoramento feito através do Cadastro Único. No entanto, se conseguem obter os R$ 200,00 limítrofes da Bolsa, esse dinheiro é somado aos outros, provenientes das aposentadorias ou pensões previdenciárias de outros parentes, o que acaba dando ao grupo familiar recursos suficientes para que todos “se virem” sem precisar trabalhar, se assim quiserem. Num caso cômico, se não fosse trágico para a sociedade em geral, mais de uma vez vi as agentes comunitárias do Saúde da Família reclamando com a Secretária de Saúde que haviam sido mal recebidas, em mais de uma residência, por terem “perturbado o sono” dos moradores, que ainda estavam na cama, todos os adultos da casa, embora já se passassem das 10h da manhã! É dentro desse mais complexo contexto de ineficiência geral que “caronistas” podem, sim, aproveitar-se do dinheiro do Bolsa Família para darem-lhe muitos destinos que não os conduzam a um processo de emancipação perante o Estado. É em tal cenário que se criam condições para que filhos se tornem produto de barganha por pequenos acréscimos no benefício, até porque não há uma checagem eficiente de se o dinheiro está mesmo sendo devidamente investido nas crianças, que podem estar recebendo apenas o mínimo para garantir sua sobrevivência.
[16] Sei que muitos argumentam que o problema com o ciclo é que o pré-requisito de professores auxiliares em cada sala, para acompanharem os alunos de aprendizagem mais vagarosa, não é cumprido em quase nenhuma escola, assim como não são realizadas satisfatoriamente as aulas de reforço — também previstas quando da idealização do modelo pedagógico. Mas não é exatamente disso que estou falando aqui? Que são programas e projetos desastrosamente administrados, executados e fiscalizados? Como se pode esperar que saia do forno o mesmo bolo, se no preparo não se seguiu com esmero a receita? Isso é um contrassenso!
[17] Fonte: Repórter Diário.
[18] Vide: Bule Voador – “Perfil laborativo do beneficiário do Bolsa Família”, 18/01/2011.
[19] Vide: Folha de S. Paulo.
[20] Vide: O Estado de S. Paulo.


[...] discutidas em meu ensaio: “O que há de errado com o Bolsa Família”. Publicado em A Voz da Espécie e no Bule [...]
Muito bom seu texto, aliás, seu blog é muito legal.
Você disse: ” Tivemos uma mudança notável no IDH”.
Pena que não foi fruto de nosso índice na educação, seria uma base mais firme de sustentação.
Abraços.
Olá, Ney!
Obrigado por suas palavras elogiosas quanto ao blog.
Pois é, meu amigo! Lamentável, isso!
Um forte abraço.