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Autor: Camilo Gomes Jr.

A Justiça brasileira: mãe condescendente dos ricos e corruptos, e a Medeia euripidiana dos miseráveis.

Recentemente, vi duas notícias que me fizeram pensar bastante num triste e antigo problema com que convivemos. Isto é, diz a tradição que a Justiça é cega, o que não é verdade; ela costuma enxergar muito bem, a questão é que vê apenas o que quer ver, da maneira como quer ver. E costuma ser assim em uns lugares bem mais do que em outros. Uma dessas notícias a que me refiro falava da recente decisão do STJ acerca do caso de Marcos Mariano da Silva, que passou 19 anos preso devido a um “lamentável engano” da Justiça. História bastante conhecida, devido a repetidas matérias veiculadas na mídia, o ex-mecânico e caminhoneiro havia sido acusado de ter matado um homem no município de Cabo de Santo Agostinho (PE), em 1976. Aconteceu porém que, quase cinco anos mais tarde, a polícia acabou prendendo o verdadeiro culpado do crime, e Marcos, apesar de sua óbvia inocência, ainda teve de amargar mais algum tempo na cadeia, até que seu caso fosse a julgamento. Quando finalmente o soltaram, ele já havia passado cerca de seis anos atrás das grades por um crime que jamais cometera. Nesse período, perdeu não só o emprego que tinha, como também a primeira esposa e os filhos, que sumiram, nunca mais deram notícias de seu paradeiro. Continuar Lendo »

Autor: Camilo Gomes Jr.

"A resignação é um suicídio cotidiano." (Balzac)

Há um ditado que diz: “Gosto não se discute”. Não concordo. Prefiro dizer que gosto não se impõe, mas, de resto, tudo é discutível. Não existe isso de território restrito à discussão. Não acho, por exemplo, que criacionistas não possam discutir a factualidade da teoria da evolução. Discuti-la, eles podem; o difícil é refutá-la. É como aquele velho debate sobre se se deve ou não debater a existência de Deus. Alguns agnósticos acham que não. Outros agnósticos e praticamente todos os ateus acham que se deve, sim. Para estes, dentre os quais me incluo, não há isso de “indiscutibilidade” da noção de Deus.

Enfim… Gosto musical é mais uma dessas searas que, penso eu, se podem sim discutir, sendo censurável apenas qualquer tentativa de minha parte de tentar impor sobre os outros meu gosto em particular. Eu gosto de rock (desde rock’n’roll a heavy metal, ainda que não tudo dentro desse spectrum), gosto de blues e jazz, gosto de MPB (e também detesto muita coisa nesse mesmo gênero) e há muito aprendi a apreciar música clássica (sobretudo Vivaldi, Mozart, Bach, Dvořák e Chopin). Pop? Bem, também sou chegado a algumas coisas nesse gênero, sobretudo o pop dos anos 1980 e 1990. Ah, sim, folk songs (Dylan) também são legais! Por fim, vindo morar aqui, na Paraíba, também passei a achar interessante aquele forrozinho pé de serra, diferente de qualquer coisa parecida com o “forró” do Calcinha Preta, do Garota Safada etc. Quanto ao resto, sinto muito aos que curtem axé, sertanejo, pagode e funk, mas tenho verdadeira ojeriza disso tudo. Sem exceções. Continuar Lendo »

Autor: Peter Singer

Original [em inglês]: “Death Penalty — Again” (Project Syndicate)

Tradução e introdução: Camilo Gomes Jr.

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INTRODUÇÃO

A pena de morte é um eco cultural dos urros de nosso "macaco" ancestral.

Como já argumentei num artigo de minha coautoria, o instinto punitivo, retributivista, que subjaz à nossa noção de justiça taliônica (“Olho por olho, dente por dente”) é perfeitamente compreensível — o que não quer dizer justificável — de um ponto de vista puramente objetivo, focado tão somente na identificação do que nos é natural. Na verdade, noções de “justiça” caracterizadas pela ideia de dar o troco na mesma moeda, tal como é o caso da pena de morte como punição por assassinatos, constituem verdadeiros ecos culturais, meméticos de fato, dos urros estrepitosos de nosso “macaco” ancestral, ou seja, do que há de mais instintivo e primitivo em nós. Mas esse é o problema: o que temos aí é mais um dos não poucos aspectos do pensamento humano em que o instinto é pai da razão. E eis por que, no fim, grande parte dos conhecidos esforços teóricos no sentido de conferir uma racionalização mais elaborada para as chamadas teorias retributivas (refiro-me às teorias absolutas) da pena acabam se amparando em muita verborragia que, sutilmente ou não, apela ao sentimento de desforra dentro de cada ser humano, bem como ao senso comum sobre a questão, ao mesmo tempo em que se valem de poucos e frágeis dados empíricos, provenientes de estudos escassos e metodologicamente questionáveis, que mais parecem dar conta de um desesperado viés de confirmação. Continuar Lendo »

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: Bule Voador

Existe um limite ético para o humor?

Quem leu O nome da rosa, de Umberto Eco, lembra-se de uma interessante discussão entre o protagonista do romance, o frade franciscano Guilherme de Baskerville, e Jorge de Burgos, monge bibliotecário do mosteiro beneditino onde se desenrola a maior parte da trama; discussão essa em que o tema central era nada menos que a natureza do riso. Seria o riso algo intrinsecamente bom ou maligno? O debate interessa em parte porque remete ao curioso clima de paranoia que imperava sob o obscurantismo medieval, quando crenças místico-religiosas tendiam a dominar e a limitar o livre exercício da razão e do próprio expressar-se individual ou coletivo. Naqueles tempos, a que alguns deram o controverso rótulo de “Idade das Trevas”, confrontar o dogmatismo religioso cristão com proposições mais objetivas, racionais ou científicas poderia simplesmente custar a vida de quem se atrevesse a tanto. Até porque questionar a fé era um dos maiores pecados em que então se poderia incorrer. E, na Baixa Idade Média, o fato era que os pecados estavam por toda parte, assombrando a mente de todos, de uma forma ou de outra. E era por medo de pecar que muitos tinham receio de rir. Continuar Lendo »

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: Bule Voador

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Há muito que vemos nos outros, mas não em nós mesmos.

Começo este texto pedindo ao leitor que imagine uma cena um tanto insólita. Você entra em certo estabelecimento, senta-se a uma das mesas disponíveis e, enquanto está sendo atendido, indeciso diante do diversificado leque de opções, você pergunta: “Alguma sugestão?” É quando, atônito, ouve a seguinte resposta: “Que tal uma punheta?” Ainda boquiaberto frente ao que acabou de escutar, o que um homem grita a um menino pré-adolescente sentado com ele à mesa ao lado deixa você ainda mais chocado. “Pois meto-te cinco dedos no cu, seu puto”, diz o sujeito, com todas as sílabas e fonemas, sem nenhum pudor nem receio de que o escutem. Não, caro leitor, nessa cena imaginada você não foi transportado de repente para algum antro de perdição na antiga Sodoma bíblica, a terra dos alucinantes pecados orgíacos cujas histórias têm sido assombro (e tentação) para a imaginação da cristandade ao longo de séculos e séculos. Na verdade, toda essa perversão aparente na ordem das coisas ao seu redor se deu apenas porque você cruzou o Atlântico e encontra-se agora em Portugal, a encantadora terrinha de nossos ex-colonizadores, cujo idioma pátrio nos foi legado e ainda temos em comum. Quer dizer, ainda temos mais ou menos em comum. Continuar Lendo »

Autor: Michael Shermer

Traduzido por: Camilo Gomes Jr.

Texto original em inglês publicado em: The Work of Michael Shermer

Temos cérebros propensos à credulidade acrítica.

O PRESIDENTE OBAMA NASCEU MESMO NO HAVAÍ? Eu acho essa pergunta tão absurda — para não dizer que é possivelmente racista em sua motivação — que, quando me deparo com “birthers1 que não pensam como eu, acho difícil até mesmo me concentrar em seus argumentos sobre a diferença entre uma certidão de nascimento e um atestado de nascimento com vida. Isto porque, uma vez que formei uma opinião sobre o assunto, ela se tornou uma crença, sujeita a inúmeros vieses cognitivos que assegurem sua verossimilhança. Será que estou sendo irracional? É possível. Na verdade, é assim que a maioria dos sistemas de crença funciona para a maioria de nós na maior parte do tempo. Continuar Lendo »

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: Bule Voador

"Cortina de Fumaça" (2010), de Rodrigo Mac Niven.

Depois de uma noite de insônia, levantei-me naquela manhã fria sentindo o corpo moído, uma dor de cabeça dos diabos, uma ânsia de vômito e aquela angústia frustrada de quem sabe que a realidade o vencera mais uma vez. Eu havia tentando. Havia mesmo! Só que não dava mais. Precisava de ao menos um pouco, pois a sensação era de que, se não o conseguisse — e rápido —, eu simplesmente enlouqueceria. Não era capaz de mudar de foco, de exorcizar da mente aqueles pensamentos tentadores, nem de calar o apelo desesperado de meu corpo. Ler? Nem pensar. A tevê, em vez de me distrair, me irritava. E muito. Não tinha jeito senão sair à procura de mais. E nem precisei ir tão longe, na verdade: a duas quadras de minha casa, eu consegui encontrar. Comprei apenas um pacotinho e voltei às pressas, as mãos tensas, a vontade de vomitar aumentando. Em casa, preparei um pouco numa correria desatinada, e quando, enfim, experimentei, senti a sensação que desesperadamente buscava, aquele prazer de atingir o zênite de um gozo superorgástico e assexual, aquela paz interior que outros menos céticos chamariam de atingir o nirvana; eu chamava apenas de satisfação. Porém, depois de alguns instantes, passado êxtase indizível daquele momento tão intenso e tão breve, veio a consciência derrotista de ter de ter perdido mais uma luta, de ser obrigado a aceitar de vez minha condição. Eu era mais um viciado. Reconhecê-lo era uma verdade inesquivável àquela altura. Várias vezes ao dia, eu dependia de um pouco, pois só assim me mantinha equilibrado, só assim conseguia voltar a cuidar das coisas em minha vida. Sim, sim. Eu estava totalmente viciado. E, naquela manhã fria, meus amigos, só me resta lhes confessar que eu não resisti a tomar mais uma xícara de café. Continuar Lendo »

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: Bule Voador

O anti-intelectualismo tem sido uma linha contínua a serpentear através de nossa vida política e cultural, alimentada pela falsa noção de que democracia significa que ‘minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento’. — Isaac Asimov

Como nossa formação educacional valoriza o intelectualismo?

Em 1963, era lançado nos Estados Unidos um livro que ficaria famoso, inclusive por ganhar no ano seguinte o cobiçado Prêmio Pulitzer na categoria Obra Não Ficcional. Trata-se de Anti-Intellectualism in American Life (trad. brasileira: O anti-intelectualismo nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967), do historiador da Universidade de Columbia Richard Hofstadter (1916 – 1970). Hofstadter, é bom lembrar, no que foi talvez seu único pecadilho como historiador, foi o responsável por disseminar em outra obra sua o termo “darwinismo social” (que não fora por ele cunhado), vinculando-o a qualquer aplicação da teoria de Darwin ao campo das ciências humanas e sociais. Seu argumento neste caso até encontrava uma justificação na primeira metade do século XX, sobretudo em face da extrapolação da teoria monística de Ernst Haeckel por parte da “ciência” nazista, a qual Hofstadter infelizmente já conhecia; porém, nos tempos atuais, só serve de munição (de festim mas barulhenta) para os críticos da psicologia evolucionista ou da adoção do paradigma evolucionista na sociologia, na antropologia, na ciência política, nas ciências jurídicas etc. De fato, embora Hofstadter chegasse a reconhecer nessa obra sobre o “darwinismo social” que a teoria de Darwin, propriamente dita, era completamente neutra do ponto de vista político-ideológico, a verdade é que pecou por não enfatizar a distinção entre esta e as extrapolações delirantes que Spencer, Haeckel e outros dela fizeram. Continuar Lendo »

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: Bule Voador

Como o Estado responde (e como deve responder) aos preconceitos que imperam na sociedade?

“A carruagem do passado não nos leva longe”, escreveu Máximo Gorki em O submundo (1902). De fato, a construção do futuro não raro exige uma drástica ruptura com o que foi e ainda permanece tão somente como ervas daninhas profundamente arraigadas na cultura de um povo. Mas como extirpar essas pragas? E o mais importante, que jardineiro o fará? Deixando de lado as metáforas: como dar um jeito na corrupção política e no jogo de “favores” tão comuns entre nós e de que há registro já no primeiro documento escrito em solo brasileiro, ou seja, na carta de Pero Vaz Caminha? Como acabar com o analfabetismo de fato e o analfabetismo funcional de que sofre a imensa maioria da população deste país, mas que serve muito bem aos interesses de políticos desonestos e líderes religiosos aproveitadores? Como pôr um fim na violência urbana e no poder do tráfico? Como dar um basta no absurdo índice de crimes praticados por causa de indiscutível homofobia neste país, onde, de acordo com um relatório relativamente recente, um homossexual corre um risco 785% maior de ser violentamente assassinado do que nos EUA? Continuar Lendo »

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: Bule Voador

Aí, crentaiada: eu sou ateu!

Vou direto ao ponto: tenho verdadeira aversão àqueles autoproclamados ateus de internet, que acham que seu ateísmo pelo ateísmo em si é uma grande causa e um indiscutível sinal de superioridade intelectual. Em primeiro lugar, porque não é preciso ser nenhum gênio para se declarar ateu — estamos cansados de ver revoltadinhos semialfabetizados em vários fóruns virtuais, blog comments e comunidades do Orkut, enfim, onde quer que se discuta sobre crenças religiosas, “gritanto” coisas não muito brilhantes como “Mande esses f**** da p*** se f***** e tomar no c*, entre aí se vc quer mandar pro inferno essa crentaiada” (comunidade no Orkut; os termos chulos foram vetados por mim), ou então “Seu crente de m****, anticristo é a p*** que te fez ok, uma vez que botou mais um asno nesse mundo” (comentário num blog sobre profecias), dentre muitos exemplos ainda mais deprimentes. Continuar Lendo »

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